Mostrando postagens com marcador Israel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Israel. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Deus e "os escolhidos"

Rabino Dov Lior


AVISO: postagem sobre extremismo religioso. Se não interessa, simplesmente ignore.

Dia desses li (e comentei no Facebook) declaração de um pré-candidato à presidência dos EUA (Mitt Romney), que alegou que Deus (Ele, o próprio) teria escolhido aquele país pra “comandar o mundo”. E por isso (em nome d'Ele), iriam à guerra sempre.

Agora, li uma outra grande asneira do mesmo gênero (nem dá pra dizer que é pior, embora até pareça, já que ambas usam como fundamentos a mesma lenga-lenga de sempre: “somos os escolhidos”). Segundo este texto, um rabino israelense chamado Dov Lior prega um “édito talmúdico” (uma “lei” religiosa antiga) que libera o assassinato de não-judeus.

O texto diz que, na cabeça doentia desse rabino, até as crianças não judias devem ser mortas, “porque não há inocentes na guerra”. A ideologia dele prega ainda que “ainda que sejam pacificados e ‘passem a respeitar a lei’, os não judeus devem ser escravizados para ‘carregar água e cortar lenha’, a serviço dos senhores da raça superior”.

Estranho, parece que já se ouviu, na boca de outros maníacos do passado, esse papinho de "raça superior"!

Pois bem, como não saio acreditando em tudo que leio, fui procurar mais a respeito do tal Rabbi Dov Lior. Cheguei, então, a uma reportagem recente do Ha'aretz (jornal israelense), a qual, infelizmente, parece comprovar a informação. E mais: diz que (assim como Mitt Romney nos EUA) o infeliz rabino não é um simples maluquete radical, mas um líder influente e respeitado.

A coisa chega ao ponto de os principais partidos da coalizão do atual governo Netanyahu quererem propor uma chamada “Lei Dov Lior”, que garantiria a loucos como ele saírem pregando assassinatos e racismo por aí, sem serem “incomodados” pela lei. Segundo eles, a Torah (bíblia do judaísmo) está acima de qualquer lei humana.

Resumindo: se Deus disse que os judeus são a raça superior, que prometeu Jerusalém a eles, e que o resto (os não-judeus, inclusive eu e talvez você) tem estatuto equivalente a “bestas de carga”, então tá falado! É isso mesmo?

Eita mundinho cada vez mais perigoso, esse nosso!


PS 1: nada tenho contra judeus em geral, mas sim contra este tipo de interpretação extremista vinda de grupos que parecem ganhar força ultimamente.

PS 2: gostaria que as “patrulhas sionistas” que enchem meu saco por e-mail dissessem apenas se discordam do rabino em questão, ao invés de se limitarem a fazer ameaças veladas.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

EUA, um “rogue state”

Em 28/12/2010, por John V. Whitbeck

John V. Whitbeck é advogado, especialista em Direito Internacional,
conselheiro da delegação palestina nas negociações com Israel.

Dia 17 de dezembro, a Bolívia reconheceu diplomaticamente o Estado da Palestina, nas fronteiras de antes de 1967 (toda a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, inclusive Jerusalém Leste).

Acontecido imediatamente depois de Brasil e Argentina também reconhecerem a Palestina, o reconhecimento pela Bolívia eleva para 106 o número de Estados-membros da ONU que reconhecem o Estado da Palestina, cuja independência foi proclamada dia 15 de novembro de 1988.

Embora esteja sob ocupação beligerante, o Estado da Palestina atende a todas as exigências da lei consuetudinária internacional para ser considerado estado soberano. Nenhuma porção do território palestino está reconhecida por qualquer outro país (exceto pela potência ocupante, Israel) como seu território soberano e, de fato, Israel só se tem declarado soberano em pequena porção do território palestino – Jerusalém Leste ‘expandida’ – o que implica que todo o território restante permanece legal e literalmente território palestino não contestado.

Nesse contexto, pode ser esclarecedor considerar a qualidade e a quantidade dos Estados que já reconheceram o Estado Palestino.

Dos nove estados mais populosos do mundo, oito (todos, exceto EUA) reconhecem o Estado da Palestina. Dos vinte estados mais populosos do mundo, 15 (todos, exceto EUA, Japão, México, Alemanha e Tailândia) reconhecem o Estado da Palestina.

Por outro lado, entre os 72 Estados-membros da ONU que atualmente reconhecem a República do Kosovo como Estado independente, só aparece um dos nove Estados mais populosos do mundo (EUA); e aparecem quatro dos vinte estados mais populosos do mundo (EUA, Japão, Alemanha e Turquia).

Quando, em julho, a Corte Internacional de Justiça declarou que a declaração unilateral de independência do Kosovo não violava a lei internacional, porque a lei internacional nada diz sobre a legalidade de declarações de independência (o que significa que nenhuma declaração de independência viola a lei internacional e que, portanto, todas são “legais”; e depende de decisão política de outros Estados soberanos reconhecer ou não a independência declarada), os EUA convocaram todos os países que ainda não haviam reconhecido o Kosovo para que o fizessem imediatamente.

Passados cinco meses, apenas três novos países responderam à convocação dos EUA – Honduras, Kiribati e Tuvalu.

Se a Liga Árabe convocasse a minoria de Estados-membros da ONU que ainda não reconheceram a Palestina, para que a reconhecessem imediatamente, não cabe dúvida de que a resposta seria bem mais eloquente (tanto em quantidade quanto em qualidade) do que a que os EUA receberam, em seu apelo a favor do Kosovo. Isso, precisamente, é o que a Liga Árabe já deveria ter feito.

Não obstante a evidência (baseada em meus cálculos pouco refinados) de que os estados nos quais vive 80-90% da população do planeta reconhecem o Estado da Palestina, e que os estados nos quais vive 10-20% da população do planeta reconhecem a República do Kosovo, a ‘mídia’ ocidental (e, de fato, boa parte, também, da ‘mídia’ não ocidental) age como se a independência do Kosovo fosse fato consumado; e como se a independência da Palestina fosse apenas um sonho que jamais se poderá realizar sem o consentimento de Israel-EUA. E boa parte da opinião pública (incluindo, parece, a liderança dos palestinos em Ramallah) tem-se deixado levar e tem reagido, pelo menos até recentemente, como objeto passivo de lavagem cerebral.

Como em vários aspectos das relações internacionais, o que interessa não é a natureza do ato (ou crime), mas, sim, quem faça o quê a quem.

A Palestina foi conquistada e continua ocupada, 43 anos depois, por forças militares de Israel. O que a maior parte do mundo (inclusive a ONU e cinco Estados-membros da União Europeia) ainda veem como a província sérvia do Kosovo foi conquistada e continua ocupada, 11 anos depois, por forças militares da OTAN.

Mas a bandeira dos EUA está sempre hasteada no Kosovo, ao lado da bandeira nacional; e a capital, Pristina, exibe um Boulevard Bill Clinton e uma estátua gigantesca, de proporções, pode-se dizer, ‘soviéticas’, do ex-presidente dos EUA.

O direito brota do poder, pelo menos nos corações e mentes dos poderosos, entre os quais se contam muitos políticos e formadores de opinião ocidentais.

Enquanto isso, quando um perpétuo “processo de paz” parece ameaçado repentinamente pelo recurso pacífico à lei internacional e a organizações internacionais, a Câmara de Deputados dos EUA acaba de aprovar, por unanimidade, projeto de lei redigido pelo AIPAC (American Israel Public Affairs Committee), que proíbe o presidente Barack Obama de reconhecer o Estado da Palestina e dá aos EUA poder de veto para impedir que chegue a bom termo qualquer iniciativa dos palestinos para tornar-se membros da ONU.

Os políticos e a ‘mídia’ ocidental usam em geral a expressão “comunidade internacional” para falar dos EUA e outros países que aceitem apoiar publicamente os EUA em determinadas questões. E chamam de “rogue state” [estado-bandido], qualquer país que resista ativamente à dominação de EUA-Israel sobre o mundo.

Pela subserviência a Israel – como outra vez se confirma na falta de qualquer voz, uma, que fosse, que protestasse contra a nova resolução da Câmara de Deputados e contra a oferta (rejeitada) que o governo Obama fez a Israel, de fato tentativa de suborno (Obama ofereceu propina gigante a Israel, em troca de suspensão por apenas 90 dias, de seu programa ilegal de colonização) –, os EUA já se autoexcluíram efetivamente da verdadeira comunidade internacional. Porque a verdadeira comunidade internacional tem de incluir a grande maioria da humanidade. E os EUA já se converteram eles próprios em “rogue state” [estado-bandido], com atos de flagrante e consistente violação, tanto da lei internacional quanto dos direitos humanos fundamentais.

Deve-se esperar que os EUA arranquem-se eles próprios do abismo e recuperem a independência. Mas todos os sinais apontam na direção oposta. Triste destino, para um país tantas vezes admirável.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Racismo oficial

Por diversas vezes este blog tem se manifestado contra os abusos perpetrados por Israel. As vergonhosas ações se tornam ainda mais sem sentido quando se lembra (e não há como esquecer) o que o povo judeu sofreu durante o Holocausto.
Fiquem com o texto e tirem suas próprias conclusões:

Sobreviventes do Holocausto criticam rabinos que proibiram aluguel a árabes

GUILA FLINT
DE TEL AVIV PARA A BBC BRASIL

O presidente da Associação Internacional dos Sobreviventes do Holocausto, Noah Flug, condenou nesta quinta-feira um grupo de cerca de 50 rabinos-chefes de cidades israelenses que assinou um decreto proibindo judeus de alugarem imóveis para cidadãos árabes.

Flug exigiu que os rabinos retirem imediatamente o decreto e afirmou que ficou chocado com a declaração. "Como judeu que sofreu o Holocausto, lembro-me de como os nazistas alemães expulsaram os judeus de seus apartamentos e dos centros das cidades para criar guetos", disse ao site de notícias israelense Ynet. "Pensávamos que no nosso país isso não iria acontecer, isso é especialmente difícil para alguém que passou pelo Holocausto", acrescentou.

No decreto, os rabinos signatários ameaçam isolar da comunidade os que violarem a ordem.

O Museu do Holocausto em Jerusalém, Yad Vashem, também publicou um comunicado condenando a posição dos rabinos. De acordo com o museu, o decreto dos rabinos é "um golpe duro para os valores básicos de nossas vidas como judeus e como um povo que vive em um país democrático".
Segundo pesquisa do Israel Democracy Institute publicada no mês passado, 46% dos cidadãos judeus israelenses não gostariam de ter vizinhos árabes, e 39% não gostariam de morar perto de trabalhadores imigrantes ou com doenças mentais [o que mostra que os rabinos não estão sozinhos em suas ideias de apartheid]. Há cerca de 1,3 milhão de árabes vivendo em Israel (em sua maioria palestinos que permaneceram no território após a criação do Estado), que representam um quinto da população.

CRÍTICAS

O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, criticou o decreto dos rabinos, afirmando que "não há lugar em um Estado democrático para esse tipo de pronunciamento". Na quarta feira, após a divulgação do decreto, cerca de 150 pessoas se manifestaram em Jerusalém, em frente à sinagoga principal da cidade, levantando cartazes com os dizeres: "decreto dos rabinos = blasfêmia".
O ex-presidente do Parlamento israelense Avraham Burg, que estava entre os manifestantes, fez um apelo ao premiê Netanyahu para que demita os rabinos, que chamou de "nacionalistas e fundamentalistas". De acordo com a escritora Yael Gvirtz, "depois de combater o incêndio no Carmel, devemos nos dedicar a combater o fogo do racismo". "Esse é um judaísmo auto-concentrado, ignorante e intoxicado pelo poder", afirmou a escritora.

APOIADORES
Apesar das críticas, cerca de 300 religiosos acrescentaram suas assinaturas ao decreto dos rabinos nesta quinta-feira, segundo o jornal Yediot Aharonot. Para o rabino-chefe da cidade de Ashdod, Yossef Sheinin, a proibição "se baseia na Bíblia". "Na Bíblia está escrito que Deus deu a terra de Israel ao povo de Israel, o mundo é tão grande e Israel é tão pequeno mas todos o cobiçam, isso é injusto", afirmou Sheinin [sempre o nome de Deus para falar bobagem da boca pra fora].
O rabino-chefe do assentamento de Beit El, Shlomo Aviner, que também assinou o decreto, disse que "os árabes são 25% dos cidadãos, e não devemos ajudá-los a criar raízes em Israel". Entre os rabinos que assinaram o decreto estão os rabinos-chefes de cidades importantes como Rishon Letzion, Carmiel, Rehovot, Herzlia, Naharia e Pardes Hana e todos são funcionários públicos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Mídia ao Avesso (coluna no Jornal Agora de 08/dez)

Acabada a tal “festa da democracia”, agora é hora de limpar o salão. E isso inclui, pelo que se observa das declarações do ministro Mantega, corte de gastos. Segundo o homem, o momento é de rever o Orçamento e frear alguns investimentos que haviam, em “boa hora”, sido prometidos. Mantega admite que os cortes podem afetar obras contidas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mas disse que apenas aqueles que ainda não se iniciaram. Então é esperar pra ver se, por exemplo, a festejada duplicação da BR-392 vai ser mantida no mesmo ritmo do período eleitoral ou se o governo que entra chegará dando tiro no pé.

Segundo o ministro, a economia está aquecida o suficiente e, por isso, não precisaria de tantos incentivos estatais. Seria a hora de a iniciativa privada entrar no jogo, enquanto o Estado desacelera. Mas o que preocupa é justamente esse aquecimento da economia, se levados em conta os gargalos em infraestrutura do país. Com o país crescendo, e com Copa do Mundo e Olimpíadas pela frente, será mesmo hora de frear os investimentos prometidos e planejados dentro do PAC (portos, aeroportos, transportes de massa)? Não existem outros gastos mais apropriados para serem enfrentados?

Voltando ao tema WikiLeaks, até que demorou para as superpotências (que, diga-se de passagem, já tiveram mais superpoderes, né?) começarem a enquadrar o “megavilão” de cabelos prateados que responde pela alcunha de Julian Assange. A fórmula do ataque foi a mesma de sempre: uso da mídia para mostrar o “grau de vilania” do sujeito, pressão sobre bancos para cortar-lhe financiamentos e sobre empresas (no caso, provedores de internet) para isolá-lo. E, por fim, o golpe de mestre: um processo judicial não pelos vazamentos de dados comprometedores (já que censurar informações pega mal), mas por suposto estupro, em que as provas são os testemunhos das garotas.

Ironia das ironias, a americana Amazon (que tem na venda de livros a sua origem) foi a primeira empresa a encarnar o servilismo e vetar o WikiLeaks em seus servidores de hospedagem.

Pra não dizerem que somente critico a grande mídia, aí vai um elogio (acho que é o espírito de Natal que já baixa em mim). Excelente o Globo Repórter da semana passada, no qual a jornalista Ilze Scamparini mostrou como algumas cidades italianas estão resgatando o bem-viver, em um movimento chamado “slow cities”. Pena constatar que cidades como a nossa, com um trânsito cada vez mais caótico (em um misto de falta de competência para o planejamento e falta de vontade para impor políticas alternativas de transporte) e poluição em descontrole, tomaram justamente o caminho oposto.


Quase ouso dizer que o governo Obama já é a maior decepção da história da política norte-americana. De tudo o que dele se esperava, só se recebe o inverso. Mas, arrisco, o pior desempenho é mesmo na sua política externa. O vazamento de informações que comprovam que os EUA foram manipulados pela inteligência israelense só tornam ainda mais patética a posição ianque de continuar bancando Tel-Aviv, com armas e muito dinheiro. Não à toa a Secretária de Estado americana Hillary Clinton (prevendo o melancólico fim de carreira) já anunciou que abandona a vida pública após terminar seu mandato.

Dezembro iniciou com uma importante notícia em nível mundial: o governo brasileiro reconheceu oficialmente o Estado Palestino dentro das fronteiras pré-1967 (o que inclui a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, ilegalmente ocupadas por Israel desde então). Ao anúncio brasileiro - país já elevado à potência emergente – seguiram-se os de Argentina e Uruguai. Os três, assim, juntam-se a mais de uma centena de países com o mesmo entendimento. Tudo indica que isto deixa os EUA de Obama em situação ainda mais frágil para vetar uma provável nova resolução da ONU neste sentido.

O que se discute não é o que pensa Israel (isso todo mundo já sabe), mas sim o que considera o mundo. E o direito internacional é claro neste caso. Desde 1967, quando Israel invadiu e anexou os territórios palestinos, o que se vê é claro desrespeito às convenções assinadas por líderes mundiais. A Quarta Convenção de Genebra, por exemplo, proíbe a uma potência ocupante remover populações nativas de uma área ocupada (limpeza étnica), transferir seus civis ao território ocupado (os assentamentos ilegais) e anexar terras ocupadas ao seu próprio território. Israel viola sistematicamente todas as três proibições, incorrendo assim em graves crimes de guerra no âmbito daquele tratado. O mais irônico, contudo, é lembrar que a Quarta Convenção de Genebra, de 1949, foi baseada justamente nos tribunais de Nuremberg, que julgaram a crueldade nazista contra judeus e outros povos.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O pervertido olhar ianque sobre o Oriente Médio


Em 30/11/2010, por Robert Fisk, The Independent


Aproximei-me desconfiadíssimo, do mais recente rumoroso episódio diplomático. E ontem, depois das eleições no Cairo – as eleições parlamentares egípcias foram, como sempre, mistura de farsa e fraude, o que, afinal de contas, sempre é melhor que choque e horror – mergulhei nos milhares de telegramas diplomáticos norte-americanos, sem absolutamente qualquer esperança. Como disse o presidente Hosni Mubarak, e lê-se num dos telegramas, “vocês sabem esquecer a tal de democracia”.


Não que os diplomatas dos EUA não entendam o Oriente Médio; é que eles já não sabem ver a injustiça. Quantidade imensa de literatura diplomática prova que o pilar da política dos EUA para o Oriente Médio é o alinhamento com Israel, que seu principal objetivo é encorajar os árabes a unir-se à aliança EUA-Israel contra o Irã, que a bússola da política dos EUA é a necessidade de domar/minar/esmagar/oprimir e, por fim, destruir o Irã.


Não vazou praticamente (pelo menos até agora) nenhuma referência às colônias israelenses ilegais exclusivas para judeus na Cisjordânia, nem aos ‘postos de controle’ israelenses, aos colonos israelenses extremistas, cujas casas pintam como cicatrizes de varíola toda a Cisjordânia palestina ocupada – ao vasto sistema ilegal de roubo de terra que é o coração da guerra Israel-palestinos. O que se vê mais, por incrível que pareça, são os mais variados espécimes de importantes diplomatas norte-americanos acocorados e rendidos ante as exigências de Israel – vários deles visivelmente apoiadores ardentes de Israel. É como se os chefes do Mossad e os agentes militares de inteligência de Israel obrigassem os padrinhos ouvir e decorar as instruções dos apadrinhados.


Há maravilhosa passagem nos telegramas, quando o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu explica a uma delegação do Congresso dos EUA, dia 28/4/2009, que “Estado palestino, só se for desmilitarizado, sem controle sobre o espaço aéreo e campo eletromagnético [sic], sem poder assinar tratados nem controlar fronteiras”. Assim sendo, adeus ao Estado palestino “viável” (palavra de Lord Blair de Isfahan) que todos supostamente desejamos. Não há registro nos telegramas de que os rapazes e moças deputados e senadores dos EUA e que lá ouviam Netanyahu tenham discordado.


Em vez disso, o The New York Times procurou as melhores frases. Eis o rei Abdullah da Arábia Saudita, por seu embaixador em Washington (sempre amigo da imprensa), dizendo que Abdullah crê que os EUA devem “cortar a cabeça da serpente” – onde, em “a serpente”, leia-se “o Irã” ou “Ahmadinejad” ou “as instalações nucleares do Irã” ou qualquer um desses itens ou todos.


Mas os sauditas vivem ameaçando cortar a cabeça de serpentes. Em 1982, Yasser Arafat disse que deceparia o braço esquerdo de Israel (depois que Israel invadiu o Líbano) e o então primeiro-ministro de Israel Menachem Begin respondeu que deceparia o braço direito de Arafat. Acho que quando somos informados – como, desgraçadamente, agora, por Wikileaks – de que candidatos a visto norte-americano, mas que os EUA não queiram por perto, são chamados pelos diplomatas dos EUA de “víboras do visto” [ing. visa vipers], a única conclusão a que podemos chegar é que cresce em todo o mundo a demanda por ofídios.


O problema é que, por décadas, os potentados do Oriente Médio ameaçam decepar cabeças de cobras, serpentes, ratos e insetos iranianos – esses últimos preferidos de Saddam Hussein, que usou “inseticida” fornecido pelos EUA para a matança como bem se sabe –, enquanto os líderes israelenses chamaram os palestinos de “baratas” (Rafael Eitan), “crocodilos” (Ehud Barak) e “bestas de três patas” (Begin).


Tenho de confessar que gargalhei, de chorar de rir, ante um telegrama de diplomata dos EUA, em tom solene-ridículo, reportando do Bahrain, que o rei Hamad – ou “Sua Alteza Suprema Rei Hamad”, como faz questão de ser chamado, em sua ditadura de maioria xiita em reino pouco maior que a ilha de Wight – havia declarado que o perigo de deixar prosseguir o programa nuclear iraniano era “maior que o perigo de fazê-lo parar”.


O maravilhoso jornalista palestino Marwan Bishara acertou ao dizer, no fim-de-semana, que esses papéis diplomáticos dos EUA são mais interessantes para estudos antropológicos, que para estudos políticos; porque são documento de uma perversão do pensamento ocidental sobre o Oriente Médio. Se o rei Abdullah (versão saudita em ruínas, em oposição à versão Reizinho Valente da Jordânia) realmente chamou Ahmadinejad de Hitler, se o conselheiro de Sarkozy chamou o Irã de “Estado fascista”, então se prova, apenas, que o departamento de Estado dos EUA continua obcecado com a II Guerra Mundial.


Adorei o espantoso relato de alguém que visitou a embaixada dos EUA em Ancara e contou aos diplomatas que o Líder Supremo do Irã Ali Khamenei sofria de leucemia e estava à morte. Não porque o pobre velho sofra de câncer – é mentira –, mas porque é o mesmo tipo de descalabro sobre líderes do Oriente Médio recalcitrantes que se vê há muitos anos. Lembro de quando “fontes diplomáticas” norte-americanas ou britânicas inventaram que Gaddafi estaria morrendo de câncer, que Khomeini estaria morrendo de câncer (muito antes de ele morrer), que o matador de aluguel Abu Nidal estaria morrendo de câncer 20 anos antes de ser assassinado por Saddam. Até na Irlanda do Norte um miolo-mole britânico contou-nos que o líder protestante William Craig estaria morrendo de câncer. Claro que Craig sobreviveu, como o horrível Gaddafi, cuja enfermeira ucraniana é descrita nos documentos dos EUA como “voluptuosa”, o que ela é. Mas haverá alguma dama loura não “voluptuosa”, nesse tipo de novelão?


Uma das reflexões mais interessantes – atentamente ignorada pela maioria dos jornais pro-Wikileaks de ontem – aparece no relato de encontro entre uma delegação do Senado dos EUA e o presidente Bashar Assad da Síria, no início de 2010. Os EUA, disse Assad aos visitantes, possuem “gigantesco aparato de informação”, mas fracassam ao analisar essa informação. “Nós não temos as habilidades que os senhores têm”, disse em tom sinistro, mas “somos bem-sucedidos no combate aos extremistas porque contamos com melhores analistas. (…) Nos EUA vocês gostam de fuzilar [terroristas]. Sufocar as redes deles dá melhor resultado”. O Irã, concluiu Assad, era o mais importante país da região, seguido da Turquia e – número três – a Síria. O coitado velho Israel nem aparece no retrovisor.


Evidentemente, o presidente Hamid Karzai do Afeganistão é “movido à paranóia” – como todos os habitantes daquela terra, inclusive quase toda a OTAN e, sobretudo, os EUA – e naturalmente o presidente do Iêmen mente ao próprio povo que está matando representantes da al-Qa’ida, quando todos o mundo sabe que os verdadeiros culpados são os guerreiros do general David Petraeus. Líderes muçulmanos não fazem outra coisa além de mentir que as proezas militares dos EUA contra outros muçulmanos são proezas deles, não ‘nossas’.


Claro, não se pode ser tão cínico. Gostei muito do telegrama diplomático dos EUA (do Cairo, claro, não de Telavive) no qual se lê que Netanyahu seria “elegante e sedutor (…) mas nunca cumpre o que promete”. Ora! Não se aplica também a metade dos líderes árabes?


E assim chegamos ao apimentado e assustador relato de encontro entre Andrew Shapiro, “Secretário Assistente de Estado do Gabinete Político-militar dos EUA” e espiões israelenses há quase exatamente um ano. Israel não pode proteger seus Cessna Caravan e Raven aviões-robôs não pilotados no sul do Líbano, reconheceu o Mossad (o Hezbollah deve ao Mossad essa preciosa informação). Um coronel israelense “J5”, coronel Shimon Arad gorjeia sobre os perigos do “Hezbollahstão” e do “Hamastão” e sobre “o impasse político interno” no Líbano – naquele momento não havia; agora, há – e sobre o Líbano como “arena militar volátil” e a “suscetibilidade do Líbano a influências externas, inclusive da Síria, do Irã e da Arábia Saudita”.


E – claro, apesar de o coronel Arad não ter falado sobre isso – também suscetível à influência de norte-americanos, israelenses, franceses, britânicos, além, também de o Líbano também ser suscetível à influência dos turcos. Shapiro “citou a necessidade de oferecer alternativa ao Hezbollah” – talvez… os policiais da Costa Rica? – e sugeriu que o exército libanês poderia defender o Hezbollah (improvável, nas atuais circunstâncias).


Há uma inestimável rejeição-negação do relatório Goldstone da ONU sobre as atrocidades em Gaza em 2008-09, pelo major-general da reserva Amos Gilad, que diz que os documentos em que se critica Israel são “sem fundamento, porque os militares israelenses fizeram 300 mil chamadas telefônicas para as residências em Gaza antes dos ataques aéreos (…) para evitar baixas entre os civis.” O infeliz, pobre Shapiro, dado que o telegrama não registra resposta dele, manteve-se em silêncio. Teria sido apenas uma, de cada cinco famílias palestinas, avisadas por telefone, se se considera a população palestina total de Gaza, crianças, bebês, todos. E mesmo assim os israelenses mataram 1.300 palestinos, a maioria dos quais civis. Claro que a Autoridade Palestina do insípido Mahmoud Abbas não quis assumir esse campo de morticínio depois que os israelenses venceram – como Israel propôs-lhe, com aprovação dos EUA – porque Israel não venceu em Gaza. Sequer conseguiram localizar nos túneis de Gaza o soldado israelense que o Hamás mantêm preso há anos.


Há momento simbólico quando o Xeque Mohamed bin Zayed al-Nahyan de Abu Dhabi – sem comparação possível com o personagem “distante e sem carisma” de seu irmão Califa – preocupa-se com o Irã na presença do embaixador dos EUA Richard Olsen o qual, então, comenta que o Xeque “manifesta visão estratégica sobre a Região curiosamente semelhante à visão israelense”. Mas é claro que manifesta! São idênticos. Todos rezam em suas mesquitas de ouro, reis e emires e generais, comprando mais e mais armas dos EUA para protegerem-se contra “o Hitler” de Teerã – melhor Hitler, acho eu, que o Hitler do Tigre em 2003, que o Hitler do Nilo de 1956 – e praza a Deus Todo Poderoso que sejam salvos pelos santificados EUA e Israel. Fico, em suspense, à espera do próximo capítulo dessa fantasia-farsa.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Mídia ao Avesso (coluna no Jornal Agora de 24/nov)

Uma nova ação do Ministério Público que visa a coibir supostos abusos na administração municipal, ajuizada na semana passada, passou de certa forma desapercebida. A procuradora-geral de Justiça (que corresponde à chefia do MP) está pedindo na justiça que sejam declaradas inconstitucionais diversas leis, editadas nos governos de Fábio e Janir Branco, que criaram vários cargos em comissão, alguns com vencimentos básicos superiores a R$ 5 mil, sem contar vantagens pecuniárias atreladas.
O argumento principal do MP é de que cargos públicos devem ser, via de regra, preenchidos por concurso público, permitindo assim que toda e qualquer pessoa possa ter a chance de, atestando suas qualificações, obter tal cargo. Os cargos ditos "em comissão" (os famosos CCs) são tratados como exceção à regra, e têm requisitos bastante bem definidos nas cartas constitucionais (federal e estadual).
Burlar tais requisitos, nomeando cargos como de direção, chefia ou assessoramento quando estes não o são, é uma atitude que acaba por prejudicar tais garantias de equidade, criando assim "feudos" onde apenas uns poucos, ditos "amigos do rei", acabam sendo privilegiados.
A ação do MP ataca 88 dos CCs criados nos órgãos da prefeitura durante os recentes governos municipais. Dentre eles, estão o de Gerente de Compras, Gerente de Comunicação e Marketing e Secretário Geral de Governo, que abrigam nomes já "históricos" dentro do governo que perdura 14 anos. Nota-se também uma profusão de assessores para funções que aparentemente se confundem, como Supervisor de Gabinete do Prefeito, Oficial de Gabinete do Prefeito, Assistente de Gabinete do Prefeito... Numa primeira análise, fica difícil saber quem chefia quem. E talvez numa segunda análise também.
Repórter, redator e fotógrafo, por exemplo, são "nomeados" como CCs. Será que estes são cargos de chefia? Um fotógrafo ou um redator da Prefeitura "se manda"? Então pra que serve, por exemplo, o gerente de Comunicação e Marketing?
A ação é nova (foi distribuída em 9 de novembro), o que significa que teremos de esperar para ver no que vai dar. Mas já existe farta jurisprudência sobre fatos do tipo, inclusive em nível local. Em junho deste ano, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça acolheu pedido da mesma Procuradoria-Geral, declarando inconstitucionais as leis que criaram CCs à profusão na Câmara de Vereadores. Dias antes, o então presidente da Casa, Delamar Mirapalheta, havia dito ao Agora que a Câmara não era "abrigo para concursados". A decisão deu seis meses para o Legislativo regularizar a situação. Há jurisprudência também em diversos municípios gaúchos. Embora, claro, cada caso seja um caso.
Interessante o que ocorreu com a Folha de S.Paulo. Crítico contundente do ministro da Educação em função dos problemas no Enem, o jornal teve que cancelar, nesta semana, a prova de seleção para um programa de treinamento em jornalismo, por conta de "problemas técnicos do servidor". Não há nova data definida. Pau que bate em Chico também deveria bater em Francisco, né?
Eric Cantona, francês e ex-craque do futebol inglês (ídolo do Manchester), agora ataca em outros campos. O jogador aposentado deu o pontapé inicial em uma campanha que começou pela França, mas se alastra rapidamente pela Europa, pedindo que os correntistas iniciem uma "Revolução Francesa financeira" de forma pacífica: sacando tudo o que tiverem nos bancos. Segundo ele, essa é a melhor resposta para confrontar as medidas de pesados cortes em programas sociais adotadas pelos governos europeus para combater as consequências dos desmandos e da permissiva regulamentação sobre o setor financeiro. A iniciativa já tem nome: Bankrun2010.
Falando no setor bancário, diz um adágio popular que o segundo melhor negócio do mundo é um banco. E que o primeiro melhor é um banco no Brasil. Este colunista já acha que o melhor negócio do mundo é ser israelense, pois, além de desrespeitarem livremente o direito internacional, ainda podem tratar norte-americanos como capachos. É difícil outra conclusão, se analisada a patética proposta que tem sido discutida entre ianques e sionistas: os EUA doam 20 poderosos caças F-35 a Israel (US$ 3 bi) e, em troca, suplicam à nação judaica que se comprometa a respeitar a legislação internacional por... meros 90 dias.
Imagine oferecer armamento pesado a um delinquente, nos morros do Rio, como incentivo para que ele se abstenha de delinquir por alguns meses!
Nesta semana, passou no Knesset (parlamento israelense) uma nova lei que, na prática, deve aniquilar com a solução pacífica de dois Estados. Segundo a nova lei, um acordo de paz que disponha sobre territórios como Jerusalém Ocidental (ocupada ilegalmente por Israel e pleiteada como capital de um Estado Palestino) só poderia passar se referendado por um referendo nacional. A tendência, portanto, é que a Palestina sobreviva apenas nos sonhos da resistência. Para vergonha da humanidade, que assiste calada ao extermínio de um povo.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Mídia ao Avesso (coluna no Jornal Agora de 17/nov))


O governo Lula foi uma merda. Luiz Carlos Prates e Lasier Martins poderiam ter simplificado assim seus comentários nos telejornais da RBS Santa Catarina e Rio Grande do Sul, respectivamente. Para Lasier, é culpa do governo federal permitir que "espertalhões" como Sílvio Santos "se apropriem de dinheiro público". Fala isso como se não soubesse que a crise no PanAmericano é de cunho privado, e que Sílvio - que comanda uma TV concorrente - cobriu o rombo dando suas empresas como garantia a um empréstimo também privado. Talvez outros donos de grandes grupos de comunicação tomassem decisões, digamos, mais ortodoxas, como deixar o rombo para o Estado. Já o Prates (que faz o mesmo papel de Lasier no JA catarinense) disse que o aumento dos acidentes de carro decorre da popularização do automóvel, "resultado deste governo espúrio [Lula], que popularizou pelo crédito fácil o carro para quem nunca tinha lido um livro [as classes mais pobres]. "Hoje, qualquer miserável tem carro", reclama, entristecido.

Assim, o sul do Brasil segue "formando" a opinião pública.

Apesar das opiniões de alguns sábios, Lula termina seus oito anos de governo com uma popularidade estrondosa, que extrapola as fronteiras do país. Pena que 83% da população brasileira seja ignorante, e não acompanhe a visão esclarecida destes poucos iluminados.

Algumas vozes discordam da política externa brasileira. Vozes das quais discordo, por ver neste ponto justamente um dos maiores legados do governo Lula. Agora mesmo, por pressão brasileira, o país conquistou junto ao G-20 aval para conter o fluxo de capital especulativo que tem sobrevalorizado o real - fazendo a festa de nós que nos abastecemos nos free-shops platinos mas ameaçando a indústria brasileira. Tá aí um cargo difícil para Dilma encontrar substituto que esteja à altura do chanceler Celso Amorim. Cargo, aliás, que não dá rima com Jobim.

Eu não arriscaria dizer o mesmo da política externa norte-americana. A intromissão militar e econômica ianque em diversas nações as quais considera estratégicas (valendo-se sempre de um cínico discurso baseado em direitos humanos) demonstra a opção pelo uso do poder e da força. Menos, é claro, quando o assunto é Israel. Agora, em troca de suspender por 90 dias as violações à lei internacional (através da colonização ilegal em território palestino), Israel receberá US$ 3 bilhões extras em ajuda militar americana (o que inclui mais 20 caças F-35).

Os EUA se comprometem ainda a bloquear possíveis (e porováveis) sanções da ONU à nação judaica, pressionar por novas sanções ao Irã e blindar o programa nuclear israelense contra investigações. A proposta indecente soa como um prêmio para um Estado que desconhece e desrespeita diariamente o direito internacional, quer queimando oliveiras de agricultores palestinos, destruindo e pilhando suas casas ou mesmo asassinando à queima-roupa ativistas em águas internacionais. E, de quebra, põe os norte-americanos de joelhos.

Além de "Nos porões da privataria" [livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., protagonista do tal dossiê "de bicudo contra bicudo", a ser lançado em breve pela editora Record], outro livro que aguardo com certa ansiedade é "O Cemitério de Praga", de Umberto Eco, recém lançado na Europa. Já polêmico, o novo livro do autor de "O Nome da Rosa" ganhou de cara a antipatia da igreja católica e da comunidade judaica. Isso, por si só, já é motivo para catapultar o interesse na obra.

Entre os dois livros, um ponto em comum: tanto Amaury Ribeiro Jr. (autor de Nos Porões...) quanto Simone Simonini (protagonista de O Cemitério...) são chegados à produção de dossiês.

Nos últimos dias, alunos de escolas particulares, em diversas partes do país, saíram às ruas em protesto. Na mira, pelo que deu para deduzir, estão políticas de inclusão que levam os negros (cotas raciais) ou os pobres (Prouni e Enem) para dentro das universidades públicas.

É bom ver o movimento estudantil de volta às ruas. Mas é interessante também ver quais bandeiras estão sendo levantadas. De todo modo, não há suspresas aqui. Não se esperava que uma mobilidade social tão grande como a que vem ocorrendo no Brasil nos últimos anos acontecesse sem tensionamentos e resistências.

Espera-se que Tarso Genro resista a prováveis pressões de indicações políticas e nomeie alguém eminentemente técnico para o Porto do Rio Grande.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Coluna Mídia ao Avesso (Jornal Agora)

Apesar das limitações inerentes a uma criação humana (afinal, todo ser humano é falho), o judiciário ainda é a derradeira esperança para aqueles que esperam por justiça no âmbito terreno (se é que existe outro "âmbito" além deste). Esta introdução, um tanto quanto óbvia, comemora duas ações ajuizadas recentemente, patrocinadas pelo eminente jurista Fábio Konder Comparato. Uma é relativa a um caso de tortura e morte durante a ditadura militar; a outra é uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) relacionada à regulamentação das empresas de comunicação no Brasil.

A ação relativa ao período da ditadura ("ditabranda", segundo a Folha de SP) é movida pelos familiares do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, torturado e assassinado nas dependências do DOI-CODI paulista, supostamente a mando do arrogante coronel Brilhante Ustra, considerado um dos principais carrascos da ditadura militar.

A morte de Merlino foi escondida pelos órgãos repressores que, dias depois, disseram que o jornalista teria "cometido suicídio", ao se jogar em frente a um "veículo não identificado" na BR-116, quando era levado a Porto Alegre para "reconhecimento de colegas militantes" (leia-se "delação sob tortura"). A verdade veio à tona tempos mais tarde: o jornalista fora torturado por cerca de 24 horas, na sede do DOI-CODI paulista, e abandonado numa solitária até a morte.

Na missa de sétimo dia de Merlino, a hipócrita crueldade: os mesmos agentes que arrancaram Merlino da casa de sua família para devolver-lhe apenas morto ocupavam os primeiros bancos da igreja, e deram os pêsames à mãe enlutada.

Quem lê o relato desta e outras atrocidades cometidas nos porões da ditadura - defendida, diga-se de passagem, inclusive em editorias de alguns dos principais veículos de comunicação da época - jamais poderá se colocar a favor de uma anistia que alcance torturadores e assassinos.

A outra ação, protocolada nesta terça-feira junto ao STF, trata-se de uma Adin por omissão. Grosso modo, é uma ação que visa a mostrar que dispositivos da Constituição estão sendo descumpridos em função da omissão do Congresso Nacional, ao deixar de editar as leis que regulamentariam determinado tema. No caso, questões relativas à regulamentação da imprensa. A ação pede regulamentação do direito de resposta, sem o qual a imprensa pode atacar reputações quase que impunemente. Pede ainda a regulamentação do art. 221 da CF, que trata do conteúdo das programações de emissoras de rádio e TV, respeitando "valores éticos e sociais".

Mas o pedido mais importante na ação é quanto ao que pede que o Congresso regulamente o art. 220 da CF, o qual proíbe o monopólio ou oligopólio dos meios de comunicação social. Que, atualmente, ocorre descaradamente no País, com óbvios prejuízos à formação da chamada "opinião pública", manipulada pelas diretrizes de poucas famílias detentoras de poderosos conglomerados de comunicação.

O momento atual, quando se observa a desproporcional influência exercida pela grande mídia em prol de uma das candidaturas à presidência (e, por consequência, de um determinado modelo político), é mais que propício a uma ação como esta. É fundamental.

A mídia tradicional perde força quando confrontada com novos modelos mais "horizontais" de comunicação, como ocorre hoje na internet, em blogs, fóruns de discussão, twitter etc. Ainda assim (e apesar do festival de manipulação patrocinado por alguns veículos), continua contando com parcela significativa de crédito junto à população. Me coloco como exemplo. Quando saiu a informação, no Facebook, de que uma ex-aluna da esposa de José Serra teria admitido ter feito aborto, hesitei em acreditar, e até mesmo sugeri que não disseminassem o fato, pois poderia ser uma armadilha para vitimizar o tucano. Só fui acreditar na veracidade quando vi a ex-aluna confirmar a informação a jornais tradicionais, como aos estrangeiros Página 12, Clarín, La Nacion, ou mesmo ao brasileiro Folha.

Em tempo: não entro no mérito do aborto em si. Creio que cabe muito mais às mulheres esta discussão. A questão é a hipocrisia contida nas críticas de quem, supostamente, teria praticado o mesmo ato.

O vice-presidente do Congresso Mundial Judeu, rabino Marc Schneider, disse nesta semana que acusar Israel de promover ocupação ilegal nos territórios palestinos seria "um insulto" a Israel. Pois bem, sr. rabino: então eu (e a quase totalidade da comunidade internacional) mantenho essa opinião, baseado principalmente (entre outras) nas resoluções nºs 446 e 478 da ONU. Ou seja, se este argumento é um insulto, continuarei a insultar Israel até que este Estado fascista pare de insultar os direitos humanos e o Direito Internacional.

Resolução 446 da ONU: (...) a criação de Assentamento israelita [assentamentos] por parte de Israel nos territórios árabes ocupados desde 1967 não tem validade legal e constitui um sério obstáculo para o lucro de uma paz completa...
Resolução 478 da ONU: (...) A resolução "censura nos termos mais enérgicos" a Lei de Jerusalém [aprovada por Israel, considerando Jerusalém como "cidade inteira e unificada, como capital de Israel"] e afirma que esta lei é uma violação do direito internacional e não afecta à contínua aplicabilidad em Jerusalém do Convênio de Genebra relativo à protecção de pessoas civis em tempo de guerra. Ademais, determina que a Lei de Jerusalém e todas as demais medidas e actos legislativos e administrativos adoptados por Israel, a potência ocupante, que têm alterado ou pretendam alterar o carácter e o estatuto de Jerusalém "são nulos e carentes de valor e devem deixar-se sem efeito imediatamente"...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O relatório "imparcial" de Israel


Relatório israelense sobre fuzilamentos de “quatro civis” não indica que eles eram três irmãs, 3, 5 e 9, e sua avó

por PHILIP WEISS em 21 DE JULHO DE 2010

Na segunda-feira o governo israelense publicou sua última palavra sobre o conflito de Gaza 2008-2009. É chamado de "segunda atualização"em sua investigação de incidentes durante o conflito.

Abaixo tenho três relatórios extraídos de um incidente durante a guerra (para os quais Norman Finkelstein dirigiu a minha atenção): o fuzilamento de três irmãs e sua avó de 07 de janeiro de 2009, em que duas das meninas morreram. Os relatórios: 1, do governo israelense; 2, um relatório do incidente no Inquérito Goldstone das Nações Unidas; e 3, o relato do ataque às meninas, em depoimento do pai ao Inquérito Goldstone.

Observe que o relatório de Israel, que absolve a unidade israelense envolvido de qualquer responsabilidade criminal, e descreve como os tiroteios alegações puramente, refere-se ao caso como o fuzilamento de quatro civis, e enquanto ela dá os seus nomes, não diz que os civis eram três irmãs, com idades de 3, 5 e 9, e seus anos 60 avó.

1º, o inquérito de Israel:

(3) Amal, Samar, Souad, Hajja e Abd Rabbo Souad e Nasir Kamiz Adham

108. Este incidente envolveu o suposto assassinato de quatro civis palestinos em 07 de janeiro de 2009, no bairro de Izbat Abd Rabbo, e foi denunciado às autoridades israelenses por várias organizações de direitos humanos. A MAG (?) refere a reclamação para uma investigação criminal direta, que foi recentemente concluída. No decurso desta investigação abrangente, a MPCID coletou depoimentos de onze palestinos que testemunharam os acontecimentos. Alguns deles não puderam ou não quiseram depor perante os investigadores MPCID, mas deram depoimentos detalhados. Além disso, os pesquisadores revisaram laudos médicos e atestados de óbito, bem como fotografias aéreas, fornecidas por uma ONG israelense que ajudou a identificar as diferentes unidades envolvidas no incidente. Mais de cinquenta comandantes e soldados destas unidades também foram questionadas pela MPCID. Alguns foram interrogados várias vezes a fim de esclarecer as circunstâncias do caso.

109. As evidências recolhidas no decurso do inquérito não poderiam confirmar a descrição do incidente pelos denunciantes, que alegaram que um soldado em um tanque abriu fogo contra um grupo de civis. As discrepâncias substanciais entre a denúncia e os resultados da investigação - em particular, a identidade da força e da seqüência de eventos - levou o MAG a concluir que a prova era insuficiente para dar início ao procedimento criminal.

2º, agora o Relatório Goldstone,

770. A missão visitou o local do tiroteio de Amal, Souad, Samar e Souad Hajja Abd Rabbo e entrevistou uma testemunha, Sr. Khalid Abd Rabbo, no local. Khalid e Kawthar Abd Rabbo deram seus depoimentos na audiência pública na Faixa de Gaza em 28 de junho de 2009. A missão também analisou depoimento de duas testemunhas adicionais que ela não foi capaz de entrevistar pessoalmente.

771. A família de Khalid Abd Rabbo e sua esposa Kawthar morava no andar térreo de um edifício de quatro andares na zona leste de Izbat Abd Rabbo, um bairro do leste de Jabaliyah habitado principalmente por membros da sua família. Pais e irmãos de Khalid Abd Rabbo com suas famílias moravam nos andares superiores da casa. Os moradores de Izbat Abd Rabbo começaram a ouvir o som de tiros e da incursão israelense por terra na noite de 3 de janeiro de 2009. A família de Khalid Abd Rabbo resolveu ficar dentro de casa, todos reunidos no andar térreo, como haviam feito com segurança durante as incursões israelenses anteriores no bairro.

772. No final da manhã de 7 de Janeiro de 2009, os tanques israelenses se posicionaram em uma pequena área agrícola na frente da casa. Pouco depois de 12h30, os habitantes dessa parte do Izbat Abd Rabbo ouviram mensagens de megafone dizendo a todos os moradores para sair. Segundo lembrou uma testemunha, houve também uma mensagem de difusão de rádio das forças armadas israelenses em torno de 12h30 anunciando que haveria um cessar fogo temporário entre uma e quatro horas daquele dia, durante o qual os residentes da área foram convidados a seguir para o centro de Jabaliyah.

773. Por volta das 12h50, Khalid Abd Rabbo, sua esposa Kawthar, suas três filhas, Souad (9 anos), Samar (com 5) e Amal (com 3), e sua mãe, Hajja Souad Abd Rabbo, sairam da casa, todos eles carregando bandeiras brancas. A menos de 10 metros da porta havia um tanque, voltado para sua casa. Dois soldados estavam sentados em cima dele com um lanche (um estava comendo batatas fritas, o outro chocolate, de acordo com uma das testemunhas). A família ficou parada, à espera de ordens dos soldados, como o que eles devem fazer, mas nenhuma foi dada. Sem aviso, um terceiro soldado saiu de dentro do tanque e começaram a atirar nas três meninas e depois também na sua avó. Várias balas atingiram Souad bater no peito, Amal no estômago e Samar nas costas. Hajja Souad foi atingida na região lombar e no braço esquerdo.

774. Khalid Abd Rabbo e Kawthar carregaram suas três filhas e a mãe de volta para dentro da casa. Lá, eles e os membros da família que havia ficado dentro tentaram pedir ajuda pelo celular. Eles também gritaram por ajuda e um vizinho, Sameeh Atwa Rasheed al-Sheikh, que era um motorista de ambulância e tinha sua ambulância estacionada ao lado de sua casa, decidiu vir a sua ajuda. Ele vestiu a roupa da tripulação da ambulância e pediu ao filho para colocar um colete fluorescente. Eles tinham guiado a ambulância a poucos metros da sua casa, na vizinhança imediata da casa Abd Rabbo, quando soldados israelenses perto desta casa mandaram parar e sair do veículo. Sameeh al-Sheikh protestou, dizendo que ele tinha ouvido gritos de socorro da família Abd Rabbo e iria levar os feridos para o hospital. Os soldados ordenaram ele e seu filho a se despir e vestir novamente. Em seguida, ordenaram-lhes que abandonassem a ambulância e caminhassem em direção a Jabaliyah, com o que eles obedeceram. Quando a família retornou para Izbat Abd Rabbo em 18 de Janeiro, encontraram a ambulância no mesmo lugar, mas a mesma tinha sido esmagada, provavelmente por um tanque.

775. Dentro da casa Abed Rabbo, Amal e Souad morreram de seus ferimentos. A família decidiu que tinha de fazer uma tentativa de seguir para Jabaliyah e levar Samar, os corpos de Amal e Souad, e sua avó para o hospital. Khaled Abd Rabbo e Kawthar, e outros membros da família e vizinhos carregaram as meninas sobre seus ombros. Hajja Souad foi levada pela família e vizinhos em uma cama. Samar foi transferida para o hospital al-Shifa e, em seguida, através do Egipto, a Bélgica, onde ela ainda está no hospital. Segundo seus pais, Samar sofreu uma lesão na coluna e ficará paraplégica para o resto de sua vida.

776. Quando Khalid Abd Rabbo voltou para sua casa em 18 de janeiro de 2009, sua casa, como a maioria das casas em Izbat Abd Rabbo, havia sido demolida. Ele ainda chamou a atenção da Missão de Inquérito para uma mina anti-tanque sob os escombros da casa de um vizinho.

3º, A seguir, o depoimento de Khaled Abed Rabbo, pai das três meninas, à missão Goldstone:

Khaled Abed Rabbo

Em 07 de janeiro às 12h50, o exército israelense patrolou nosso jardim e os tanques israelenses se posicionaram em frente à nossa casa. Eles começaram a gritar para nós com megafones e nos pediram para sair de casa. Então, eu saí com minha esposa e minhas três crianças: Suad, 8 anos, Samar, 4 anos, e Amal, 3 anos, e minha mãe, de 60 anos. Estávamos todos segurando bandeiras brancas.O Exército israelense estava estacionado do outro lado da nossa casa. Então, ficamos na entrada do terreno e segurando bandeiras brancas .... Os tanques ficaram sete metros de distância da nossa casa .... Eles não disseram nada para nós. Havia dois soldados sentados em cima do tanque. Um deles estava comendo chips. O outro estava comendo chocolate. Estávamos olhando para saber o que devíamos fazer, onde deveríamos ir ... Ficamos surpresos porque de repente um terceiro soldado saiu do tanque e começaram a disparar contra as crianças, sem razão... sem explicação, nenhum pretexto. Minha filha de 3 anos, seu estômago foi atingido e seus intestinos estavam expostos. Então, realmente fiquei espantado com aquilo: como podia um soldado disparando na minha filha? Então, carreguei minha filha de 3 anos. Ela mal conseguia respirar... Minha outra filha também foi ferida no peito. Então eu levei as duas, Samar e Amal, para dentro da casa. Minha esposa e minha mãe e minha outra filha Suad ainda estavam fora. Minha esposa se juntou a mim para carregar Suad... O peito estava ferido por muitas balas. Minha mãe, 60 anos, ela estava carregando a bandeira branca, e foi ferida no antebraço e também no estômago. Então, estávamos todos dentro da casa e começamos a chamar o CICV, as ambulâncias, que alguém viesse salvar-nos, mas ninguém vinha... e de repente ouvimos uma ambulância, mas em seguida mais nada... silêncio. Depois, vimos que os soldados de Israel pediram ao motorista da ambulância para sair do carro, se despir, e então demoliram a ambulância com o tanque ... Minha filha, Amal, 3 anos, ela estava morrendo e, ao final do dia ela morreu. Minha outra filha, de 8 anos, como eu disse, seu peito estava crivado de balas. Ela faleceu. Minha outra filha, Samar, suas costas estavam crivadas de balas. Suas costas estavam aberta. Ela não estava respirando pelo nariz, mas através de seus pulmões e ela me dizia: "Pai, ajuda, ajuda", e eu não podia fazer nada. Ela estava com sede. Eu estava com medo, se eu lhe desse água, o que poderia acontecer. Eu não sabia o que fazer. Minha mãe, 60 anos, também estava morrendo. Eu estava indefeso. Eu não sabia o que fazer pelos meus filhos. Minha filha morrendo na minha frente. Então, levei-a e deixei a casa, mesmo correndo risco de ser morto, porque eu não aguentava mais. Então, levei a minha filha e saí de casa. O soldado, ele poderia apenas me matar e à minha filha... eu não agüentava mais. Eu não podia deixar meus filhos morrerem na minha frente.

Traduzido do original (Mondoweiss) por Germano S. Leite