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sábado, 18 de dezembro de 2010
Obama’s War on WikiLeaks — and Us
Michael Brenner, no Huffington Post
A maneira casual com que os norte-americanos estão rasgando suas liberdades é de tirar o fôlego. Direitos que foram reverenciados como as jóias espirituais da Nação por 225 anos estão sendo colocados de lado como se fossem descartáveis. Fazemos de conta que ainda valorizamos os ideais dos quais eles são emblemáticos no momento em que os jogamos fora. Apenas um povo confuso por emoções descontroladas e que esqueceu de sua identidade pode agir de forma tão indiferente.
As flagrantes violações de direitos e proteções legais básicos são um dos destaques da década do 11 de setembro nos Estados Unidos. Monitoramento eletrônico por atacado, detenções arbitrárias, investigações intrusivas de pessoas e organizações sem motivo ou autorização judicial, a participação da CIA e da inteligência militar na contravenção de proibições estipuladas — uma vasta gama de práticas desprezíveis e ilegais. Na semana passada atingimos uma nova profundidade no desrespeito oficial à lei.
O ataque extrajudicial do governo Obama contra o WikiLeaks e a pessoa de Julian Assange é o mais amedrontador. Autoridades federais colocaram seu peso sobre empresas privadas para que se negassem a prestar serviços ao WikiLeaks e a qualquer pessoa que pretendia estender apoio financeiro ao grupo. O fato de que o PayPal, a Amazon, a Mastercard e a Visa são prestadores de serviços públicos demonstra o abuso de poder governamental.
O Departamento de Justiça também pode ter feito pressão sobre o governo sueco para colocar a Interpol atrás do sr. Assange por conta de ofensas sexuais surreais, ainda indefinidas, que os promotores gastaram dois meses preparando. (Alegadamente, Washington ameaça cortar o compartilhamento de inteligência com as autoridades amedrontadas de Estocolmo). Agora há informações de que os suecos estão colaborando com Washington para manter Assange detido no Reino Unido por tempo suficiente para que ele seja indiciado sob alguma acusação criada pelo Departamento de Justiça, que age em completo segredo. Adicionalmente, a Força Aérea dos Estados Unidos promoveu um blecaute no acesso eletrônico em todos os seus computadores aos jornais que publicaram resumos dos telegramas vazados.
Empregados ficaram proibidos de ler os jornais sob ameaça de severa punição. Uma ordem geral proíbe todos os empregados do Departamento de Defesa de ler os telegramas impressos — seja no santuário de suas casas, seja no lobby do Hotel Intercontinental de Cabul. Esta é a versão dos militares para as práticas repressivas usadas por regimes autocráticos em todo o mundo — práticas que Washington denuncia como ataques odiosos contra a liberdade.
O ponto-chave, que supera todos os outros, é que os Estados Unidos não tem autoridade legal para fazer qualquer uma destas coisas. Não buscaram autoridade legal para fazê-lo. A Casa Branca e o Pentágono simplesmente se deram o poder de punir arbitrariamente da forma como querem. Autoridades norte-americanas, a começar de Barack Obama, estão declarando seu direito de inflingir penalidades nos cidadãos com base em nada mais que sua própria vontade. A premissa e o precedente representam contravenção direta de nossas liberdades fundamentais. Não há distinção entre estas ações e uma hipotética ação do governo federal para negar a indivíduos ou grupos serviço de banda larga ou de eletricidade sob alegação de que estes serviços poderiam ser usados para embaraçar aqueles que tem poder em Washington.
É uma situação preocupante, que se torna mais preocupante ainda pelo silêncio que cerca este assalto histórico ao poder. A mídia convencional não publica críticas editoriais, os colunistas ignoram as questões relativas às liberdades civis, assim como os editorialistas (com exceção de Eugene Robinson); as associações de advogados não falam uma palavra, as universidades continuam em seu isolamento e os políticos pedem o sangue de Assange (literalmente) ou se escondem com medo do rótulo de serem molengas ou sabotadores da segurança da Nação. É especialmente notável que o New York Times, que poderia ser acusado de servir de acessório a qualquer crime do qual o sr. Assange possa ser acusado, manteve a boca discretamente fechada, de forma pouco heróica.
O estado coletivo do pensamento americano se mostra incapaz de fazer a distinção básica e elementar entre a preferência pessoal e a lei. Levantar a questão com colegas e amigos gera respostas que nascem tão somente do que a pessoa pensa sobre o que fazem o WikiLeaks e Assange. É uma lógica eticamente obtusa. Minha opinião pessoal não tem nada a ver com a ilegalidade e a arbitrariedade do que nosso governo está fazendo. Nem poderia. É preciso denunciar as violações de nossos princípios e leis seja quem for o objeto dos abusos. Nós parecíamos entender isso.
Para completar a semana de notícias ruins para as liberdades civis, um juiz federal, John Bates, arquivou uma ação que pretendia evitar que os Estados Unidos tornem alvo um cidadão norte-americano baseado no Iemen, Anwar al-Awlaki, que nossas agências de segurança colocaram numa hit list. A ação foi movida pelo pai do clérigo. O Departamento de Justiça de Obama alegou que o tribunal não tem autoridade legal para censurar o presidente quando ele toma decisões militares para proteger os norte-americanos de ataques terroristas. O juiz Bates arquivou a ação dizendo que apenas o sr. al-Awlaki poderia movê-la.
Agora temos a confirmação judicial do direito de autoridades indefinidas, usando critérios indefinidos, de liquidar um cidadão dos Estados Unidos apenas por vontade própria. O único recurso do alvo, aparentemente, é entrar secretamente em um tribunal federal, junto com advogados, desde que evite ser fuzilado no caminho. Novamente, não tivemos comentários públicos a respeito da decisão.
Como chegamos a este ponto? A resposta óbvia é o medo — medo explorado por autoridades eleitas cujos interesses políticos atropelam o juramento de proteger e obedecer a Constituição dos Estados Unidos da América. Medo e o comportamento que ele gera. Supostamente somos o povo cuja bravura nos mantém livres — supostamente.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Nem o inferno conhece fúria como de império corneado
15/12/2010, Pepe Escobar, Asia Times Online http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/LL16Ak02.html
A revolução não será televisionada.
A revolução não será reapresentada, mano;
A revolução será ao vivo.
Gill Scott-Heron, 1970
(Pode ser ouvido em http://www.youtube.com/watch?v=1qoalKUt0mo)
A revolução não será reapresentada, mano;
A revolução será ao vivo.
Gill Scott-Heron, 1970
(Pode ser ouvido em http://www.youtube.com/watch?v=1qoalKUt0mo)
Nem o inferno conhece fúria como de mulher corneada.
William Congreve [dramaturgo inglês, 1670-1729], na peça “The Mourning Bride”, 1697
William Congreve [dramaturgo inglês, 1670-1729], na peça “The Mourning Bride”, 1697
Não há episódio de Law and Order ou The Good Wife[1] que supere isso.
Parece que tudo afinal se resumiu ao detalhe nada insignificante de conseguir, em minutos, meros 315 mil dólares em dinheiro.
Às 15h25 GMT da 3ª-feira, o fundador de WikiLeaks Julian Assange foi libertado sob fiança por uma corte londrina. Sim. As condições cairiam melhor se tivesse sido acusado de ser agente da al-Qaeda: fiança estipulada como se noticiou em 315 mil dólares, em dinheiro; ‘toque de recolher’ das 10h às 14h e das 22h às 2h; apresentação em delegacia de polícia às 18h, todos os dias; passaporte confiscado; e uso de tornozeleira eletrônica para rastrear seus movimentos. Mas pelo menos, livre!
Não, não foi bem assim. Duas horas mais tarde, Assange foi mandado de volta à presença do juiz; a Procuradoria sueca apelara. Ficou tudo como antes, pelo menos por mais 48 horas: Assange permaneceria na prisão Wandsworth, sob condições que seu advogado Mark Stephens descreveu como “Orwellianas”, “Dickensianas”, “Vitorianas” ou todas as anteriores.
O novelão exibido como extravaganza amalucada-sangrenta para tapete vermelho do Festival de Cinema de Cannes – com empurra-empurra de repórteres, flashes espocando, twittagem frenética de dentro da sala de julgamento e apoio de celebridades, de Jemima Goldsmith a Ken Loach e sobrinha de Benazir Bhutto. E tudo isso gerado por acusações de estupro apresentadas duas ex-fanzocas de Assange Anna Ardin e uma Miss W, versão irmã-gêmea da “mulher corneada” de Congreve. Pela lei inglesa, não houve estupro, segundo o advogado de Assange Geoffrey Robertson. Portanto, se não houve estupro, não há motivo para extraditar Assange para a Suécia – e da Suécia, de onde poderia ser extraditado para os EUA, como exigem seletos grupos de norte-americanos “patriotas” de tridente em riste.
São Julian ou Assange o Estuprador?
Oh, as ligações perigosas entre sexo e a liberdade de imprensa!
Falando fora do tribunal, imediatamente depois de Assange (não) ter sido libertado sob fiança, Vaughan Smith, fundador do FrontLine Club no oeste de Londres, fez o possível para demarcar um nível adequado de debate. Disse: “Não se trata só de liberdade de imprensa. Trata-se da Internet. Como jornalistas, deveríamos estar muito preocupados com a ameaça de leis que limitarão nossa liberdade. Assange meteu um grande espelho à frente dos jornalistas. Os jornalistas estão aflitos com a imagem que estão vendo.”
Antes de todo o som e fúria judiciais, Assange ganhara o primeiro lugar em pesquisa entre leitores da revistaTime para selecionar a Personalidade do Ano de 2010. Muito à frente do segundo colocado, o primeiro-ministro da Turquia Recep Tayyip Erdogan, o mesmo Erdogan que, no “cablegate” de WikiLeaks, diplomatas norte-americanos descreveram com perigoso islamista anti-norte-americano.
Casem agora essa dupla progressista Assange/Erdogan, com pesquisa da CNN na qual 44% dos britânicos declararam-se convencidos de que as acusações de crime sexual contra Assange são “pretexto” para poder mantê-lo preso, para que possa ser processado pelo governo dos EUA. Ah, as ligações perigosas entre sexo e a liberdade de imprensa, outra vez!
E tudo isso depois de Assange ter enviado mensagem ao mundo, via sua mãe, Christine, distribuída pelo canal australiano de notícias Seven News. Na mensagem, Assange não perdeu a oportunidade para mais uma bomba: “Agora sabemos que Visa, Mastercard e PayPal são instrumentos da política externa dos EUA. Antes, não sabíamos. Agora, já sabemos.” Isso é saber redigir manchete de primeira página!
E quem dá aos altos executivos de Amazon, Mastercard, Visa, PayPal, Facebook, Twitter e, mais dia menos dia, Google – empresas privadas que detêm o só muito levemente mascarado monopólio da Internet – o direito de agir como editores do tipo de informação à qual a opinião pública deve ter acesso? Mega-empresas comerciais tomando decisões políticas em nome do interesse público? Bem que a opinião pública pode protestar: “OK, comprem quantos deputados e senadores dos EUA vocês queiram, mas não se metam com nosso direito de escolher.”
Em vez de acompanhar a saga sexual made-in-Scandinavia, o mundo todo deveria estar discutindo a que é a questão-chave de nosso tempo. Quem mais se beneficiará do acesso às informações mais cruciais WikiVazadas? O incansável hipercapitalismo hegemônico e seus asseclas? Ou os movimentos sociais globais contra-hegemônicos – em resumo, o poder popular?
Se o grande Herbert Marcuse estivesse vivo, já teria avisado que o império está aprendendo rapidamente a lição de WikiLeaks, e que rapidamente saberá aproveitar-se dela.
Os realistas já esperam nova legislação imperial “antiterroristas”. Pouco importa que o ex-analista da CIA Ray McGovern tenha lembrado de aspecto essencial, em entrevista na CNN: O chefe do Pentágono Robert Gates disse que os telegramas vazados não põem em risco vidas de norte-americanos (os relatórios são “altamente exagerados”, disse Gates). A OTAN disse também que “nenhuma de nossas fontes foi exposta”. E até o “El Supremo” do AfPak, general (“Estou sempre me posicionando para 2012”) Petraeus disse a mesma coisa. Mas nada disso bastará para aplacar a elite do establishment e sua coorte de mentirosos, caluniadores, gângsteres ideológicos e vasto sortimento de parasitas, todos babando, doidos para acabar com Assange. Perderam o controle, outra vez
Make no mistake[2] em matéria de o que é, mesmo, a “nova ordem mundial” real: o campo de batalha tem hoje a cara de um movimento de resistência contra a apropriação da tecnologia de informação pelas elites do poder. A fúria, a ansiedade para silenciar Assange, se não para acabar co’a raça dele, empregando para tal os meios que sejam necessários, revela a verdadeira cara do imperador: terei controle total, indivisível e indiscutível sobre todas as tecnologias.
Naturalmente, nem o próprio WikiLeaks é imune à batalha. Uma aparente orgia de transparência pode não passar de cortina de fumaça. O próprio Assange sempre reclamou que a mídia alternativa jamais se mostrou capaz de analisar e sintetizar a torrente de dados dos seus gigantescos. Apesar disso, porções imensas da opinião pública estão tendo acesso ao “cablegate” ou principalmente ou exclusivamente através dos parceiros de WikiLeaks nas grandes empresas-imprensa. São eles que selecionam, editam e definem o “ponto de vista” a partir do qual os documentos são noticiados. A palavra é sempre a mesma: manipulação. Os grandes jornais manipulam os dados vazados.
Não há razão alguma para engolir-se a ‘edição’ de Le Monde, El Pais ou do The New York Times [ou da Folha de S.Paulo, de O Estado de S.Paulo, de O Globo, da revista Veja etc., no Brasil (NTs)]. Já há inúmeros exemplos, até aqui, de opinião conversacional, desimportante, enunciada por diplomata dos EUA, que se tornou evento ‘decisivo’, exclusivamente porque editada com requintes técnicos da redação do ‘jornalismo’ de futricas. É preciso que o público leia os próprios telegramas (já há 1.885 páginas espelho de WikiLeaks, e o número continua a aumentar).
Numa via paralela, a internet pulula de teorias de conspiração, segundo as quais WikiLeaks seria apenas um sofisticado agente de manipulação psicológica – incluindo a ideia de que Assange seria sido belamente pago por Israel para apagar telegramas embaraçosos (como se Israel já não vivesse suficientemente embaraçada pelo que perpetra na Palestina). Claro. É preciso também investigar WikiLeaks, para conhecer o que não está sendo divulgado.
Mas há problemas com o cenário Israel-pagou-Assange. Algum autor poderia – ou não – ter ouvido essa história de Daniel Domscheit-Berg, ex-colaborador de Assange, que agora está lançando seu próprio site de ‘vazamentos’ OpenLeaks, cujo diferencial será vazar menor volume de dados, e mais lentamente. Tanto quanto se sabe até agora, a melhor fonte de todos esses desenvolvimentos é WikiRebels, documentário de uma hora, iluminador, distribuído pela televisão pública sueca, SVT, ao qual se pode assistir aqui e agora emhttp://svtplay.se/v/2264028/wikirebels_the_documentary . O saque de Roma
Não é preciso ter os poderes analíticos de um Michel Foucault para desconfiar muito do modo como as elites do poder, seja na Suécia ou nos EUA, e sempre em nome da “liberdade”, “segurança” e um consenso universal a favor do mercado, sempre fazem o diabo para impor universalmente sua própria griffe hegemônia de transparência.
A Suécia conseguiu circunscrever e virtualmente enquadrar todos os sobretons de liberdade e da imprevisibilidade no reino das relações sexuais – com a vantagem extra de que tudo pode ser furiosamente dissecado/inspecionado.
Portanto... Todo o cuidado é pouco com fornicadores(as) cujas camisinhas dão chabu no meio nos procedimentos! É indispensável ter 100% de certeza de que em todos os inefáveis nanossegundos do rola-rola há consenso absoluto, total, irrefutável, à prova de qualquer investigação. É isso, ou você estuprou alguém. Outra vez, sei, parece reexibição “liberal” do filme de Monty Python “Inquisição Espanhola”. Confesse! Confesse! A Orgia da Transparência casa-se com a Alegria da Inquisição.
E é aí que São Julian o Apóstolo (da liberdade de expressão) converge para Assange o Estuprador, o Mártir da Transparência. E, isso, num país que tem uma das legislações mais avançadas, do mundo, de proteção à liberdade de expressão.
Mais para o fundo, a coisa fica pior. De Naomi Klein a Naomi Wolf, é evidente para todas as mulheres espertas, que as fanzocas escandinavas de Assange sentiram-se tomadas pelo “amor”. Bem, depois de uma noite veio outra noite – e deve ter sido horrível descobrir, em conversa ‘de moças’, que o “amor” fora, de fato, “traição”, mais uma, pelos imutáveis machos chauvinistas sem coração. Quem diria que a Escandinávia ainda abriga “mulheres corneadas” que ainda sonham os contos de fada de Hollywood. Pior: mulheres letradas, ferozmente independentes, na Europa e nos EUA, que avaliam Hollywood pelo que Hollywood é, consideram profundamente humilhante que essa lei sueca de mil caras infantilize a tal ponto as mulheres.
E já que estamos falando de sexo, como não lembrar a coincidência poética de esse mais recente “filme de tribunal” acontecer no mesmo dia em que o primeiro-ministro da Itália Silvio “Il Cavaliere” Berlusconi, do qual os telegramas WikiVazados só dizem, basicamente, que é ganancioso, irresponsável, dado a trinchar ninfetas em orgias à moda Nero, sobreviveu por um triz a um voto de desconfiança e, imediatamente, praticamente no mesmo instante, Roma foi tomada por furiosas manifestações de protesto e (literalmente) pegou fogo, em fúria. É como rebobinar Nero.
Mais uma vez, make no mistake: não se trata do re-incêndio da Antiga Roma. Todo o império está em fogo. O hipercapitalismo hardcore pode ser simultaneamente um Terminator e um gigante com pés de barro.
Cabe aos progressistas decifrar o enigma e enfrentar o paradoxo. A Arte de Guerra de Sun Tzu encontra Gilles Deleuze e sua máquina de guerra subterrânea. Já se combatem guerrilhas nômades de informação-tecnologia. A ‘contrainsurgência’ dos EUA está virada de pernas p’ra cima. Avante! À net-guerra! (Não esqueçam as camisinhas).
Protejam Assange!
15/12/2010, John Pilger, New Statesman
"Guardiões dos direitos da mulher” na imprensa de esquerda britânica apressaram-se em condenar o fundador de WikiLeaks. De fato, a cada passo de seus contatos com nosso sistema judicial, os direitos humanos básicos de Assange foram desrespeitados.
Há quarenta anos, um livro intitulado The Greening of America [O rejuvenescer da América] fez furor. Na capa, lia-se: "Há uma revolução a caminho. Não será como as revoluções do passado. Virá do indivíduo.” Naquele momento, eu trabalhava como correspondente nos EUA e lembro que o autor, jovem intelectual de Yale, Charles Reich, foi elevado, do dia para a noite, à categoria de guru. Sua mensagem era que a ação política fracassara e só a “cultura” e a introspecção poderiam mudar o mundo. A coisa misturou-se a uma insidiosa campanha de Relações Públicas das grandes corporações orientada para afastar o capitalismo ocidental do senso de liberdade inspirado nos movimentos pelos direitos civis e contra a guerra. Os novos eufemismos da propaganda passaram a ser pós-modernismo, consumismo e ‘eu-ismo’.
O ego era então o zeitgeist [al. espírito do tempo]. Impulsionado pelas forças do lucro e da mídia, a busca da consciência individual arrasou o espírito da justiça social e do internacionalismo. Proclamou-se a nova divindade; o pessoal era o político.
Em 1995, Reich publicou Opposing the System, no qual desdisse praticamente tudo que escrevera em The Greening of America. “Não haverá alívio nem para a insegurança econômica nem para o fracasso humano”, escreveu então, “até que reconheçamos que forças econômicas descontroladas criam conflito, não bem-estar (...)”. Dessa vez, não houve filas nas livrarias. Em tempos de neoliberalismo econômico, Reich estava em descompasso com o individualismo rampante da nova elite política e cultural do ocidente.
Falsas militantes
O renascimento do militarismo no ocidente e a busca por uma nova “ameaça” depois do fim da Guerra Fria decorreram da desorientação política dos que, vinte anos antes, teriam constituído oposição veemente. E afinal, dia 11/9/2001, foram finalmente silenciados, e muitos foram cooptados para a “guerra ao terror”. A invasão do Afeganistão em outubro de 2001 teve apoio de lideranças feministas, especialmente nos EUA, onde Hillary Clinton e outras falsas militantes do feminismo fizeram do tratamento às mulheres afegãs pretexto para atacar o país e provocar a morte de pelo menos 20 mil pessoas, além de dar renovado alento aos Talibã. A evidência de que os senhores-da-guerra apoiados pelos EUA eram tão violentos quanto os Talibã não foi considerada argumento capaz de contraditar tão elevadas disposições. O espírito do tempo – os anos da despolitização “pessoal” e do obnubilamento do verdadeiro radicalismo – havia funcionado. Nove anos depois, a consequência é o desastre no Afeganistão.
Parece que a lição precisa ser outra vez aprendida, se se vê a fúria com que um grupo de feministas midiáticas atira-se contra Julian Assange e WikiLeaks – a “Wikiblokesphere”, como diz Libby Brooks no Guardian de 9/12 [http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2010/dec/09/nobody-gains-from-misogynist-defence-of-assange]. DoTimes ao New Statesman, muitas feministas tem-se comprometido no ataque contra Assange, a partir das acusações incompetentes, contraditórias, caóticas da justiça sueca.
Dia 9/12, o Guardian publicou longa entrevista feita por Amelia Gentleman com Claes Borgström, apresentado como "altamente respeitado advogado sueco” [http://www.guardian.co.uk/media/2010/dec/08/julian-assange-rape-allegations]. De fato, Borgström é sobretudo poderoso membro do Partido Social Democrático. Só interveio no caso Assange quando a Procuradora sênior de Stockholm desconsiderou a acusação de “estupro” por “absoluta falta de provas”. No artigo de Gentleman para o Guardian, uma fonte anônima assopra aos leitores que “o comportamento com as mulheres (...) vai acabar criando problemas para Assange”. O boato foi levado por Brooks ao jornal, no mesmo dia. Ken Loach, eu e outros “da esquerda” estamos “lado a lado” acompanhando os odiadores de mulheres e “teóricos da conspiração”. Para o inferno a investigação jornalística. Reinam a ignorância e o preconceito.
O advogado australiano James Catlin, que defendeu Assange em outubro, diz que as duas mulheres disseram aos procuradores que haviam concordado com fazer sexo com Assange. Depois do “crime”, uma das mulheres ofereceu uma festa em homenagem a Assange. Quando Borgström foi perguntado sobre por que defendia as mulheres, dado que ambas desmentiram a acusação de estupro, ele respondeu: “Elas não são advogadas.”
Catlin descreve o sistema judicial sueco como “caixa de piadas”. Assange e seus advogados pediram, durante três meses, às autoridades suecas, que lhes fosse permitido ler o processo. Nada conseguiram até dia 18/11, quando receberam o primeiro documento – em idioma sueco, o que contraria a lei europeia.
Ameaça nada velada
Até agora, Assange ainda não foi formalmente acusado de coisa alguma. Jamais foi “fugitivo”. Pediu e obteve autorização para deixar a Suécia e a polícia britânica sempre soube de seu endereço, desde o instante em que pisou em solo britânico. Nada disso impediu que um juiz inglês o prendesse dia 7/12, ignorando sete dispositivos legais, e o mandasse para uma “solitária” na prisão Wandsworth.
Em todos esses passos, os direitos humanos básicos de Assange foram desrespeitados. O covarde governo australiano, que tem a obrigação legal de proteger e apoiar seus cidadãos, ameaçou confiscar seu passaporte. Em manifestações públicas, a primeira-ministra Julia Gillard, cancelou vergonhosamente até a presunção de inocência, base do sistema jurídico em todo o mundo e também na Austrália. O ministro australiano de Relações Exteriores deveria ter convocado os dois embaixadores, da Suécia e dos EUA, para alertá-los oficialmente sobre a violência contra os direitos humanos de Assange – dentre outros, Assange é vítima no crime de incitamento ao homicídio.
Diferentes desses, multidões de cidadãos decentes reuniram-se em manifestações a favor de Assange: nem são odiadores de mulheres, nem “cães pit-bulls da internet” – expressão de Libby Brooks [e do Sr. Clóvis Rossi, na Folha de S.Paulo, mas nesse caso usada em geral, contra todos os que discordem dele pela internet, não apenas contra os que defendem Assange] para designar os que defendem valores diferentes dos defendidos por Charles Reich.
Noutro campo, das feministas de respeito, Naomi Klein escreveu pelo Twitter:
Há quarenta anos, um livro intitulado The Greening of America [O rejuvenescer da América] fez furor. Na capa, lia-se: "Há uma revolução a caminho. Não será como as revoluções do passado. Virá do indivíduo.” Naquele momento, eu trabalhava como correspondente nos EUA e lembro que o autor, jovem intelectual de Yale, Charles Reich, foi elevado, do dia para a noite, à categoria de guru. Sua mensagem era que a ação política fracassara e só a “cultura” e a introspecção poderiam mudar o mundo. A coisa misturou-se a uma insidiosa campanha de Relações Públicas das grandes corporações orientada para afastar o capitalismo ocidental do senso de liberdade inspirado nos movimentos pelos direitos civis e contra a guerra. Os novos eufemismos da propaganda passaram a ser pós-modernismo, consumismo e ‘eu-ismo’.
O ego era então o zeitgeist [al. espírito do tempo]. Impulsionado pelas forças do lucro e da mídia, a busca da consciência individual arrasou o espírito da justiça social e do internacionalismo. Proclamou-se a nova divindade; o pessoal era o político.
Em 1995, Reich publicou Opposing the System, no qual desdisse praticamente tudo que escrevera em The Greening of America. “Não haverá alívio nem para a insegurança econômica nem para o fracasso humano”, escreveu então, “até que reconheçamos que forças econômicas descontroladas criam conflito, não bem-estar (...)”. Dessa vez, não houve filas nas livrarias. Em tempos de neoliberalismo econômico, Reich estava em descompasso com o individualismo rampante da nova elite política e cultural do ocidente.
Falsas militantes
O renascimento do militarismo no ocidente e a busca por uma nova “ameaça” depois do fim da Guerra Fria decorreram da desorientação política dos que, vinte anos antes, teriam constituído oposição veemente. E afinal, dia 11/9/2001, foram finalmente silenciados, e muitos foram cooptados para a “guerra ao terror”. A invasão do Afeganistão em outubro de 2001 teve apoio de lideranças feministas, especialmente nos EUA, onde Hillary Clinton e outras falsas militantes do feminismo fizeram do tratamento às mulheres afegãs pretexto para atacar o país e provocar a morte de pelo menos 20 mil pessoas, além de dar renovado alento aos Talibã. A evidência de que os senhores-da-guerra apoiados pelos EUA eram tão violentos quanto os Talibã não foi considerada argumento capaz de contraditar tão elevadas disposições. O espírito do tempo – os anos da despolitização “pessoal” e do obnubilamento do verdadeiro radicalismo – havia funcionado. Nove anos depois, a consequência é o desastre no Afeganistão.
Parece que a lição precisa ser outra vez aprendida, se se vê a fúria com que um grupo de feministas midiáticas atira-se contra Julian Assange e WikiLeaks – a “Wikiblokesphere”, como diz Libby Brooks no Guardian de 9/12 [http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2010/dec/09/nobody-gains-from-misogynist-defence-of-assange]. DoTimes ao New Statesman, muitas feministas tem-se comprometido no ataque contra Assange, a partir das acusações incompetentes, contraditórias, caóticas da justiça sueca.
Dia 9/12, o Guardian publicou longa entrevista feita por Amelia Gentleman com Claes Borgström, apresentado como "altamente respeitado advogado sueco” [http://www.guardian.co.uk/media/2010/dec/08/julian-assange-rape-allegations]. De fato, Borgström é sobretudo poderoso membro do Partido Social Democrático. Só interveio no caso Assange quando a Procuradora sênior de Stockholm desconsiderou a acusação de “estupro” por “absoluta falta de provas”. No artigo de Gentleman para o Guardian, uma fonte anônima assopra aos leitores que “o comportamento com as mulheres (...) vai acabar criando problemas para Assange”. O boato foi levado por Brooks ao jornal, no mesmo dia. Ken Loach, eu e outros “da esquerda” estamos “lado a lado” acompanhando os odiadores de mulheres e “teóricos da conspiração”. Para o inferno a investigação jornalística. Reinam a ignorância e o preconceito.
O advogado australiano James Catlin, que defendeu Assange em outubro, diz que as duas mulheres disseram aos procuradores que haviam concordado com fazer sexo com Assange. Depois do “crime”, uma das mulheres ofereceu uma festa em homenagem a Assange. Quando Borgström foi perguntado sobre por que defendia as mulheres, dado que ambas desmentiram a acusação de estupro, ele respondeu: “Elas não são advogadas.”
Catlin descreve o sistema judicial sueco como “caixa de piadas”. Assange e seus advogados pediram, durante três meses, às autoridades suecas, que lhes fosse permitido ler o processo. Nada conseguiram até dia 18/11, quando receberam o primeiro documento – em idioma sueco, o que contraria a lei europeia.
Ameaça nada velada
Até agora, Assange ainda não foi formalmente acusado de coisa alguma. Jamais foi “fugitivo”. Pediu e obteve autorização para deixar a Suécia e a polícia britânica sempre soube de seu endereço, desde o instante em que pisou em solo britânico. Nada disso impediu que um juiz inglês o prendesse dia 7/12, ignorando sete dispositivos legais, e o mandasse para uma “solitária” na prisão Wandsworth.
Em todos esses passos, os direitos humanos básicos de Assange foram desrespeitados. O covarde governo australiano, que tem a obrigação legal de proteger e apoiar seus cidadãos, ameaçou confiscar seu passaporte. Em manifestações públicas, a primeira-ministra Julia Gillard, cancelou vergonhosamente até a presunção de inocência, base do sistema jurídico em todo o mundo e também na Austrália. O ministro australiano de Relações Exteriores deveria ter convocado os dois embaixadores, da Suécia e dos EUA, para alertá-los oficialmente sobre a violência contra os direitos humanos de Assange – dentre outros, Assange é vítima no crime de incitamento ao homicídio.
Diferentes desses, multidões de cidadãos decentes reuniram-se em manifestações a favor de Assange: nem são odiadores de mulheres, nem “cães pit-bulls da internet” – expressão de Libby Brooks [e do Sr. Clóvis Rossi, na Folha de S.Paulo, mas nesse caso usada em geral, contra todos os que discordem dele pela internet, não apenas contra os que defendem Assange] para designar os que defendem valores diferentes dos defendidos por Charles Reich.
Noutro campo, das feministas de respeito, Naomi Klein escreveu pelo Twitter:
“Rape is being used in the #Assange prosecution in the same way that women’s freedom was used to invade Afghanistan. Wake up! #wikilieaks” / [“O estupro está sendo usado na acusação contra Assange exatamente como a liberdade da mulher foi usada para invadir o Afeganistão. Acordem!”
[tradução publicada no blog Grupo Beatrice]
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