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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

União de interesses


Sempre às turras e apontando baterias uns contra os outros, os partidos que (em tese) representam os interesses da população rio-grandina na Câmara dos Vereadores finalmente mostraram união em torno de um mesmo objetivo. Em uma improvável nota conjunta distribuída hoje ao final da tarde, onde presidentes do PMDB e do PT, do PSDB e do PCdoB assinam lado a lado, está o objeto de tamanha conjunção de esforços: dar posse imediata aos suplentes que, de acordo com as regras vigentes em 2008, não obtiveram da população a aprovação (representada por uma quantia de votos mínimos) para serem declarados vereadores eleitos.

Os movimentos foram rápidos. No mesmo dia em que a PEC dos Vereadores (que desde sempre recebeu o rechaço popular) foi promulgada pelos senadores e deputados federais (os mesmos que proporcionaram, nos últimos meses, diversos escândalos como a farra das passagens, os atos secretos, os castelos não declarados e outros "petit criminalité"), foi feito um estranho arranjo, em reunião mantida na casa de um dos aspirantes a edil, onde representantes de todos os partidos interessados em mais uns carguinhos combinaram como se daria a manobra para alastrarem-se pelo plenário da Casa legislativa mais antiga do Rio Grande do Sul.

Só que, ao que parece, esqueceram de combinar com os russos. A ideia inicial era de que o presidente da Casa, Delamar Mirapalheta (PDT), deveria ir hoje ao juiz eleitoral, dr. Bento Fernandes de Barros Junior, e solicitar a imediata diplomação dos aspirantes a vereador, para que pudessem se apossar dos cargos o quanto antes. Mirapalheta, que não nasceu ontem, preferiu seguir seus instintos e, ao invés de peitar o magistrado, achou por bem fazer uma consulta à Justiça Eleitoral, com relação à vigência imediata ou não da famigerada PEC que ainda fede a placenta (ou seria menos ofensivo dizer "que sequer abriu os olhinhos"?). O juiz, também agindo com a cautela necessária que o caso exige (afinal, ninguém vai morrer se não embolsar o quanto antes a grana do cargo de vereador, ou "sendo mais certinho novamente"*, não há periculum in mora), achou por bem direcionar a consulta para instâncias superiores, a tomar uma decisão de forma açodada, sob a pressão dos interessados.

A cautela do presidente da Câmara revoltou todos os partidos, que emitiram a tal nota conjunta, na qual definem ser "obrigação" de Delamar dar posse imediata aos aspirantes a vereador, "independentemente de quaisquer consultas formuladas ao Poder Judiciário Eleitoral", em absurda afronta àquele Poder, a quem compete exclusivamente o ato de diplomação de candidatos eleitos.

O presidente da Câmara vai conseguir sustentar sua postura frente a este ataque em bloco? Improvável. Mas essa impensável reunião em torno de um tema que só a eles interessa (eis que frontalmente contrário ao pensamento popular), e subscrita por partidos de todos os matizes (PCdoB, PMDB, PT, PDT, PSDB, PPS e PTB), já foi suficiente para insultar a inteligência dos eleitores (pagadores de impostos), além de, tragicamente, diminuir ainda mais a esperança de encontrar valores realmente éticos na política. E, acima de tudo, envergonhar quem ainda ousa acreditar.


* Nesse ponto eu ia escrever "sendo politicamente correto", mas são duas palavrinhas que se repelem cada vez com mais força.