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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Mídia ao Avesso (coluna no Jornal Agora de 15/dez)

É impressionante como os discursos de direitos humanos, como dignidade e liberdade de expressão, sempre invocados pelos países que se intitulam xerifes do mundo para justificar sanções e ataques contra nações menores, andam queimando a língua de muita gente (dita) boa por aí. Os EUA criticam o regime cubano e as prisões políticas (seriam 115 presos por lá, segundo a Comissão Cubana de Direitos Humanos, ou apenas um, segundo a Anistia Internacional), porém o país de Obama mantém mais de 170 presos em Guantánamo, sem sequer um processo formal. Os mesmos EUA criticam a pena de morte dada à iraniana Ashtiani, acusada pelo homicídio do marido, mas 53 mulheres aguardam por seus carrascos nos corredores da morte de prisões americanas.
Agora, apesar de históricos discursos em prol da liberdade de expressão, alguns países ocidentais escorregam na armadilha da arbitrariedade e apelam para táticas nada honrosas com o fim de sufocar o site WikiLeaks, que nada mais fez do que expor como pensa a diplomacia norte-americana. No mais puro estilo "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço", alguns governos resolveram criminalizar Julian Assange como forma de sufocar o site, além de erguer bandeiras (da Visa e da Mastercard???) para pressionar empresas com ligação com o site como meio de neutralizá-lo.
Para mostrar que ainda permitem a livre expressão, o jornal Washington Times permitiu que seu colunista Jeffrey T. Kuhner publicasse a seguinte pérola: “Devemos tratar o sr. Assange da mesma forma que outros valiosos alvos terroristas: matá-lo”. Aí pode, né?
Como bem apontou o jornal The Guardian, Visa e Mastercard (que bloquearam doações via cartão para o WikiLeaks) permitem alegremente repasses para a Ku-Klux-Klan e seus racistas de lençol e fronha branca na cabeça.
E o Serra, hein? Segundo diplomatas ianques, o cara que “era do bem” prometeu às empresas estrangeiras as regras que elas quisessem para sugar o pré-sal brasileiro, como um belo milk-shake de petróleo. Que (sem) vergonha!
De acordo com os números do Twitter, Dilma foi mais comentada em 2010 (em 2º lugar entre as personalidades) do que Lady Gaga (em 3º). A presidente eleita bateu também o "homem-bomba" Julian Assange (4º), que explodiu embaixadas usando apenas as próprias palavras dos diplomatas. Mas ninguém foi mais citado do que o onipresente Justin Bieber. O guri que é primeiríssimo nas paradas de sucesso também liderou no microblog. Tem gosto pra tudo, mesmo.
No ranking de Notícias, parece que os tuiteiros andavam um pouco mais engajados. O vazamento de óleo da BP ficou no topo, seguido pelo terremoto no Haiti e pelas enchentes no Paquistão. O único tema que pendeu à futilidade entre os dez primeiros da lista foi o noivado do príncipe Williams. E só no 9º lugar.
Assunto mais indigesto, sobretudo para a maioria da mais alta corte do judiciário brasileiro, é o da responsabilização criminal dos militares que sequestraram, torturaram e mataram durante o regime militar. Processados e condenados em países como Uruguai, Argentina e Chile, no Brasil os torturadores foram anistiados, com a bênção do STF. Agora, já que as autoridades brasileiras lavaram as mãos no caso da "ditabranda", caberá à Corte Interamericana de Direitos Humanos (órgão da Organização dos Estados Americanos) julgar o país. O Brasil, como signatário de diversos tratados no âmbito da OEA, deverá passar pela vexatória situação de se ver pressionado externamente a defender os direitos mais básicos de seus cidadãos.
Dona por anos a fio do título de nº 1 em vendas no país, a Fiat anunciou a construção de sua segunda unidade de produção de automóveis. A fábrica, disputada também por São Paulo, será mesmo construída em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, por conta de oportuna prorrogação de um regime especial para o setor automotivo. Algo como a história da Ford, envolvendo o RS (Guaíba) e a Bahia (Camaçari). Será que a mudança fará Alckmin apanhar tanto quanto Olívio Dutra até hoje apanha por aqui?
Parece que finalmente quem usa a travessia entre Rio Grande e São José do Norte vai ser melhor atendido. Segundo informações, o novo capitão-dos-portos não teria gostado do que viu em algumas embarcações que exploram o serviço. E, ao que já se sabe, a fiscalização mais exigente não ficará restrita ao transporte apenas de passageiros. Enfim, uma boa notícia.
Gosto é que nem... braços. Cada um tem os seus. Dito isso, aproveito pra elogiar a decoração de Natal deste ano no Cassino. Após dois anos de enfeites medonhos, agora cabe dar os parabéns. Simples, porém bem feita, a decoração natalina do balneário dá uma primeira impressão bastante boa aos turistas e veranistas.
Se confirmada a informação, uma das figuras há mais tempo ocupando cargo na administração municipal deve se desligar na virada do ano, para ficar apenas com seus próprios negócios na iniciativa privada.
Era pretensão demais querer ganhar um Mundial sem técnico e com Alecsandro na frente. E o que o Renan fez, na minha época, dava "justa causa". :)

Como crítico contumaz da mídia, me acho no dever de fazê-lo também quando o veículo envolvido é este em que escrevo. E, na minha opinião, é o caso hoje. Matéria da página 7 desta quarta-feira (edição impressa), sobre um senhor de 85 anos que reclama de um restaurante vizinho à sua casa é, ao meu ver, não só desnecessária como exemplo de uso inadequado do jornalismo.

Pra começar, por mais que o(a) jornalista que assina a matéria tenha ouvido os dois lados, obviamente o texto mostra desconhecimento da realidade. Declarações como a de que clientes fazem algazarra ou "urinam" na frente do local são no mínimo contestáveis, já que da "matriz" do restaurante no centro de Rio Grande jamais se ouviu reclamações deste tipo. E outras chegam ao absurdo, como a de que os entregadores de mercadoria não deveriam "passar pela calçada" (pública) da casa do reclamante.

Claro que o morador, sentindo-se incomodado, tem direito a reclamar. Mas existem as autoridades competentes para tal (devidamente acionadas, e tomando as necessárias providências, pelo que se lê). E, mesmo antes disto, existe o diálogo. E isso, lembre-se, se efetivamente os problemas se manifestarem este ano (afinal, o restaurante sequer havia aberto as portas). Só então, talvez, caberia ao jornal expor aos assinantes uma mera discussão de vizinhos.

“A imprensa que fiscalizava o poder está morta”


Glenn Greenwald, na revista eletrônica Salon [excerto]

O professor de Jornalismo Jay Rosen tem análise como sempre radical, criativa e provocadora de WikiLeaks, que expressou num vídeo de 14 minutos (em http://vimeo.com/17393373). Sobre por qual razão fontes valiosas preferem enviar seus documentos e outros vazamentos a WikiLeaks, em vez de enviar à imprensa-empresa tradicional, diz ele:

“No caso dos EUA, uma das razões é que a própria legitimidade da imprensa está sob suspeita, aos olhos dos vazadores. E há pelo menos uma boa razão para isso. Porque, enquanto temos o que se apresenta como “imprensa cão de guarda de valores democráticos”, temos aí – à nossa frente, para quem queira ver – o claro fracasso daquela imprensa, que evidentemente não faz o que diz que faz, que seria fiscalizar o poder; a imprensa que conhecemos não faz outra coisa além de tentar ocultar os compromissos e os objetivos do poder.

Por isso, acho que é erro desqualificar o que WikiLeaks faz sem, simultaneamente, incluir no quadro os espetaculares fracassos da imprensa que conhecemos nos últimos 10, 20, 30, 40 anos – mas sobretudo nos anos recentes. Sem a crise de legitimidade que atinge o jornalismo-empresa nos EUA, os vazadores não tenderiam a confiar tanto numa ‘estrela’ global como Julian Assange e numa organização sombria como WikiLeaks…

Eventos amplíssimos, cataclísmicos (como a guerra do Iraque) considerados dentro do regime de legitimidade, estão por trás do caso de WikiLeaks, porque, não fosse por aqueles eventos, os vazadores não teriam o apoio que têm, não teriam operado de modo solidário como operaram, nem teriam a força moral que mobilizaram para expor o que o governo Obama está de fato fazendo. A imprensa que fiscalizava o poder está morta. O que resta hoje no lugar daquela imprensa é WikiLeaks”.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Mídia, dominação e luta de classes



Não consegui identificar o autor do texto abaixo. Por isso, apenas aponto o link para onde teria sido originariamente postado.


Posted: 22 Nov 2010 05:34 PM PST 

Na mesma semana, dois fenômenos idênticos: de um lado, um “tal de” Luiz Carlos Prates (desculpem, eu o desconhecia até então) diz na TV que pobres não devem ter carros; do outro, o intelectual (?) Luiz Felipe Pondé lamenta no jornal o fato de pobres viajarem de avião. Manifestações que chocaram muitos telespectadores e leitores.

Prates e Pondé são figuras emergentes no Olimpo dos repetitivos popstars da grande mídia, que tem ainda o vazio Arnaldo Jabor e os Veja boys Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo entre seus membros, todos altamente irritados com o governo Lula.

Não vou entrar nos méritos do atual presidente. Mas o fato é que seu governo permitiu, sim, que muitos pobres – embora não todos – passassem a comprar mais, a realizar “planos” ou “sonhos” de consumo. Ainda que o carro não seja zero quilômetro e a viagem de avião seja comprada em uma promoção, o fato é que uma parcela da população mais pobre saiu do patamar da mera satisfação de necessidades para o nível da realização de desejos. E isso incomoda muito aos colunistas e comentaristas da mídia.

A principal função do consumo na atualidade não é satisfazer necessidades, mas diferenciar e identificar os consumidores em grupos. Ou seja: diferenciar os pobres da classe média e identificar entre si os membros da classe média. Mas e os ricos? Bem, os ricos estão acima disso tudo, seguros em sua diferença porque seu dinheiro provém do capital e não da renda e essa é uma vantagem estratosférica na lógica da diferenciação.

A partir do momento em que um pobre pode comprar as mesmas coisas que eu, que sou da classe média, pouco me diferencia dele e meu lugar privilegiado na ordem social está ameaçado. Meu pequeno consumo (no sentido de pequeno burguês) de luxo se torna algo básico e acessível a todos. Se os pobres passam a ter autonomia de consumir o mesmo que eu, eles passam a integrar o mesmo espaço que eu na pirâmide da dominação social. E isso me obriga a gastar mais, a trabalhar mais e a me endividar mais caso eu queira continuar me diferenciando pelo consumo e queira subir um degrau nessa escala. A situação é de total insegurança: meus limites estão abalados, minha estabilidade econômica também e minhas certezas mais profundas, idem. Os pobres estão mais próximos de mim do que nunca e meu pavor de me tornar um deles começa a se concretizar.

Em O Mal-Estar na Civilização, Freud mostra que é a proximidade do outro que incomoda. (O livro, um dos mais importantes de Freud para pensar a sociedade, você baixa aqui). Quanto mais semelhante ele é de nós, mais o desprezamos, principalmente porque essa semelhança ameaça a noção construída de “nós” e de “outros”. As menores diferenças nos servem para construir tal diferenciação, e Freud deu a isso o nome de “narcisismo das pequenas diferenças”, O dinheiro e, no capitalismo atual, principalmente o consumo – sim, podemos consumir sem ter dinheiro, graças a cheque especial, cartão de crédito e financiamentos – ajudam a classe média a forjar sua “pequena diferença” em relação aos pobres.

Freud é bem específico:
"É sempre possível unir um considerável número de pessoas no amor, enquanto sobrarem outras pessoas para receberem as manifestações de sua agressividade" (p. 136 da edição da Imago).
A diferença forjada é o principal elemento para legitimar a estratificação social e, com ela, a dominação de um grupo sobre outro. E quando falamos em mídia falamos em dominação.

Um dos principais estudiosos contemporâneos da mídia, John B. Thompson mostra que todo o conteúdo produzido pela mídia é ideológico. Ele estuda os principais conceitos de ideologia da filosofia e da política – Marx, Napoleão, Lukács, Lênin, Mannheim – e elabora uma definição própria do termo: ideologia é um sistema de crenças e práticas que serve para estabelecer e sustentar as relações de dominação. (O desenvolvimento e definição literal do conceito estão em seu livro Ideologia e Cultura Moderna, Editora Vozes.) Thompson também mostra que uma das mais eficazes práticas ideológicas é a diferenciação entre “nós” e os “outros”.

Os (pseudo) intelectuais que proliferam na mídia – comentaristas e cronistas que expressam opiniões preconceituosas contra os pobres, como Pondé, Prates, Jabor, Mainardi, Azevedo – têm espaço privilegiado nos veículos e estão ali por uma razão. Eles são capazes de produzir argumentos, elaborar teses, forjar ideias, colocar em palavras a lógica nem sempre consciente de diferenciação à qual a classe média se apega para construir sua identidade e excluir os pobres de quase todos os campos da vida em sociedade. Esses “intelectuais” – alçados a esse posto não por sua competência e conhecimento, mas por dizerem o que certos grupos querem ouvir – alimentam com suas frases bem construídas a fragmentação da sociedade em camadas e a diferenciação entre cada uma delas. E não é por acaso que “situam” a diferença no universo do consumo e do prazer. São esses os elementos que humanizam o outro, o pobre, e os aproximam cada vez mais da classe média.

O ódio que expressam quando falam dos pobres é um ódio que, na verdade, poderia ser voltado a si mesmos. Odeiam-se por estarem tão próximos dos pobres, mas não conseguem enxergar essa proximidade como o que ela é: o fato de fazerem parte de uma fração mediana da pirâmide econômica, sem o capital – financeiro, social, cultural – necessário para serem alçados à classe mais alta.
Pierre Bourdieu, um mestre da sociologia e do estudo das formas de diferenciação de classe, além de “pai” dessa visão do capital como algo que vai além do dinheiro, tem duas falas muito apropriadas em seu livro A Distinção (pdf) para pensar esse ódio dos pobres. Uma é sobre a classe média (pequena burguesia): “o pequeno burguês se faz pequeno para ser burguês”, quer dizer, é melhor ser um burguês minúsculo (e medíocre) do que ser um pobre. A outra é sobre os intelectuais. Diz que eles são a fração dominada da classe dominante, ou seja, o capital de que dispõem (conhecimento, talvez, ou o mero bom uso das palavras) não é suficiente para lhes dar o poder, apenas para colocá-los a serviço do poder. Duas ideias para ter em mente na próxima vez que você abrir um jornal ou ouvir um “tal de” Prates falar na TV.

As verdadeiras razões da mídia despudorada

Nunca na história desse país, diria o torneiro mecânico que se despede da presidência da República, a chamada grande imprensa (ou simplesmente PiG, como prefere PHAmorim) destilou tanto veneno contra um governo. Foi um ataque diário, pungente, psicopático, no qual mesmo os fatos positivos eram transformados em tragédia constante. E chegou ao despudor de Veja, que publicou uma impensável capa na qual a maior autoridade do país era retratada tomando um pontapé no traseiro (e ainda dizem que o governo Lula censura a imprensa brasileira!).
Pra quem se vale apenas destes veículos, admira muito o Brasil ter sobrevivido à crise financeira mundial e, mais do que isso, ter saído fortalecido da mesma. Pelo noticiário mostrando "terra arrasada" a cada nova capa do lixo semanal de Veja, por exemplo, nossa economia deveria estar claudicando, o desemprego deveria ter explodido, a inflação tinha que estar em total descontrole e juros e risco-país estariam agora em níveis estratosféricos.
Como não é o que acontece, então alguma coisa deveria explicar essa psicose da grande mídia contra o governo. Só a aversão à ascensão das classes mais pobres, com quem agora as "elites intelectuais do país" têm agora que dividir espaço (como nas estradas para o litoral, não é sr. Prates?), nã é capaz de explicar os ataques sem fim. Algo mais motiva os barões da mídia. E é o de sempre: a defesa do suposto privilégio de dividir o butim, no caso, representado pela bolada que os governos (todos eles) torram a cada ano em publicidade.
Basta olhar o que ocorreu com as verbas de publicidade no governo Lula. O que antes era dividido entre poucos veículos privilegiados, agora é "espraiado" por milhares de pequenos jornais, rádios, revistas e sites, capilarizando a informação e capitalizando mais empresas, gerando empregos e, não menos importante, diminuindo a concentração do poder de informar a população - democratizando a comunicação.
Buenas, e já me espalho em excesso. Fiquem a seguir com o recente artigo do cientista político e escrito Venício Lima (publicado no Observatório da Imprensa), que desnuda os números das verbas publicitárias federais.

Publicidade oficial: onde o calo dói

Ao final de dois mandatos, a mudança de orientação na distribuição das verbas oficiais de publicidade ficará na história como talvez a principal contribuição do governo Lula no sentido da democratização das comunicações. Isso pode explicar muito do comportamento da grande mídia nos últimos anos.
Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa

No auge da disputa eleitoral de 2010, quando o governo e a grande mídia faziam acusações mútuas, o presidente Lula, em entrevista concedida ao portal Terra, travou o seguinte diálogo com seus entrevistadores:

Terra – (...) O senhor tem feito críticas duras, dizendo que a imprensa, a mídia tem um candidato e não tem coragem de assumir e, ao mesmo tempo, o contraditório diz que existiria um Projeto Político (...) para "enquadrar meios de comunicação". (...) O que mais incomoda o senhor: é a cobertura (ser) crítica de um lado e não existir a investigação sobre os demais candidatos? Seria isso? (...) O senhor está dizendo que ela [a imprensa] é desequilibrada? Só está cobrindo um lado e não está cobrindo...

Presidente Lula – (...) Eu acho que a imprensa está cumprindo um papel importante quando ela denuncia. Por quê? Ou você sabe por que alguém denunciou, ou você sabe por que alguém cobriu ou você sabe por que saiu na imprensa. Quando sai alguma coisa na imprensa você vai atrás. (...) Vou te dar um exemplo, sem citar jornal. Na campanha passada, os caras diziam, "porque o avião do Lula...", porque o Aerolula... Passando para a sociedade, disseminando umas bobagens, vai despolitizando a sociedade. Agora, estão dizendo que a TV pública é a TV do Lula. Nunca disseram que a TV pública de São Paulo é do governador de São Paulo e as outras são dos outros governadores. Agora, uma TV para um presidente que está terminando o mandato daqui a três meses, é a TV Lula. Ou seja, esse carregamento de... composto de... de muita... de muita, eu diria, de muito preconceito ou de muita até, eu diria até, às vezes, ódio, demonstra o que? (...) [a imprensa] se comporta como se o pessoal da Senzala tivesse chegando à Casa Grande. (...) Agora, a verdade é que nós temos nove ou dez famílias que dominam toda a comunicação desse País. A verdade é essa. A verdade é que você viaja pelo Brasil e você tem duas ou três famílias que são donas dos canais de televisão. E os mesmos são donos das rádios e os mesmos são donos dos jornais...

Terra – Nos municípios, isto tem uma capilaridade: o chefe político tal...

Presidente Lula – Então, muita gente não gostou quando, no governo, nós pegamos o dinheiro da publicidade e dividimos para o Brasil inteiro. Hoje, o jornalzinho do interior recebe uma parcela da publicidade do governo. Nós fazemos propaganda regional e a televisão regional recebe um pouco de dinheiro do governo. Quando nós distribuímos o dinheiro da cultura, por que só o eixo Rio – São Paulo e não Roraima, e não o Amazonas, e não o Pernambuco, e não o Ceará receber um pouquinho? Então, os homens da Casa Grande não gostam que isso aconteça. (Ver aqui a íntegra da entrevista.)

No trecho da entrevista acima reproduzido, o presidente Lula atribui o comportamento desequilibrado da mídia brasileira (1) ao fato de que "nove ou dez famílias" controlam a comunicação no país; (2) ao preconceito em relação a um operário ter chegado à presidência da República; e (3) à política de regionalização das verbas oficiais de publicidade iniciada em seu governo.

Que a grande mídia brasileira é olipolizada, fundada na propriedade cruzada dos meios e controlada por algumas poucas famílias, em grande parte vinculadas às velhas oligarquias políticas regionais e locais, é fato comprovado e sabido.

Que existe preconceito das "elites" brasileiras em relação à ascensão política de um operário e migrante nordestino que conquistou, em processo democrático e pelo voto, por duas vezes, a presidência da Republica, é tema que tem merecido a atenção de analistas e cientistas políticos pátrios faz tempo.

Estou, todavia, interessado na regionalização das verbas oficias de publicidade.

Mudança radical

De fato, uma importante reorientação na alocação dos recursos publicitários oficiais teve início em 2003: sem variação significativa no total da verba aplicada, o número de municípios cobertos pulou de 182 em 2003 para 2.184, em 2009, e o número de meios de comunicação programados subiu de 499 para 7.047, no mesmo período (ver quadros abaixo).


Essa política de regionalização atende aos melhores princípios da "máxima dispersão da propriedade" [ver, neste Observatório, "Concessões de Rádio & TV: Pela máxima dispersão da propriedade"], promove a competição no mercado de comunicações, estimula o mercado de trabalho do setor e, acima de tudo, colabora para o aumento da pluralidade e da diversidade de vozes na democracia brasileira.

Há ainda um longo caminho a ser percorrido para que o Estado cumpra o seu papel e contribuía efetivamente para o cumprimento do "princípio da complementaridade", isto é, do equilíbrio entre os sistemas privado, público e estatal de comunicações, como reza o artigo 223 da Constituição de 1988.

Para isso, a reorientação da distribuição dos recursos da publicidade oficial precisa contribuir, de fato, para o surgimento e a consolidação dos sistemas público e comunitário de mídia no país.

De qualquer maneira, ao final de dois mandatos, a mudança de orientação na distribuição das verbas oficiais de publicidade ficará na história como talvez a principal contribuição do governo Lula no sentido da democratização das comunicações.

Dedo na ferida

Nunca é demais lembrar que o Estado tem sido – direta ou indiretamente – uma das principais e, em muitos casos, a principal fonte de financiamento da mídia privada comercial, seja ela impressa ou eletrônica. Basta verificar quais são os maiores anunciantes dos jornais, das revistas semanais e dos telejornais das redes de televisão privadas do país.

Não é sem razão que colunista – e não os proprietários – da Folha de S.Paulo já acusou o governo Lula de estar promovendo "Bolsa-Mídia" para uma "mídia de cabresto" e de "alimentar uma rede chapa-branca na base de verbas publicitárias" [cf. Fernando de Barros e Silva, "O Bolsa-Mídia de Lula" in Folha de S.Paulo, 01/06/2009].

Talvez a reorientação da distribuição dos recursos da publicidade oficial explique muito do comportamento da grande mídia nos últimos anos. Afinal, o governo Lula colocou o dedo na ferida, ou melhor, a grande mídia sabe exatamente onde o calo dói.

Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Senadores querem ouvir os donos da RBS

Luiz Carlos Prates tem todo o direito de comentar as estultícies que quiser. Mas deve se responsabilizar pelo que diz. E, conforme quem é do ramo já tá careca de saber, o veículo através do qual se propaga uma declaração passível de sanção também pode ser solidariamente responsável.
É o que pregam os senadores Ideli Salvati e Magno Malta, ao defender que os "donos" da RBS sejam convocados a dar explicações no Senado, sobre o infeliz comentário de Prates, o "Lasier" catarinense.
Sem mais delongas, o vídeo com a opinião preconceituosa e classista (embora sincera) de Prates (já comentado e mostrado aqui dias antes) e a reação dos senadores:




quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Mídia ao Avesso (coluna do Jornal Agora)


Até uns dias atrás, Mayara Petruso era uma ilustre desconhecida. E a jovem de 21 anos, estudante do 6º semestre de Direito, possivelmente continuaria no anonimato - e a salvo de processos - se tivesse feito seus comentários preconceituosos apenas para um grupo restrito de amigos e colegas de faculdade. Quantos de nós já não fomos politicamente incorretos uma vez na vida, em conversas privadas? No entanto, a jovem paulista expressou seu desgosto com a derrota de Serra no Twitter, uma nova ferramenta de comunicação que tem um poderoso potencial de rapidíssima disseminação do que ali se escreve. Com isso, passou de uma "maria ninguém" a uma celebridade negativa em um piscar de olhos. E agora possivelmente responderá a um incômodo processo penal.

A atitude da garota é, sem dúvida, condenável. Mas Mayara não deixa de ser um bode expiatório (ou uma cabra, no caso) e mesmo uma vítima do clima que se instaurou no País após a infame campanha do tucano José Serra, patrocinada e estimulada por boa parte da grande mídia. Dentre outros casos, muito já se falou, nos últimos dias, do mapa em azul e vermelho publicado por diversos veículos de comunicação, dividindo o Brasil numa parte meridional rica e desenvolvida (que teria preferido o tucano) "contra" a parte setentrional pobre e atrasada (que teria elegido a petista Dilma). E que, como já se provou, é uma falácia. Aqui mesmo no RS, Serra teve 50,94%, contra 49,06% de Dilma. Praticamente um empate. E não me consta que o RS seja um Estado de "vagabundos", "ignorantes" ou "dependentes de esmola do governo federal", entre outras acusações absurdas que se faz contra os nordestinos.

A campanha tucana também deu sua "contribuição" para essa lamentável onda de preconceito e divisionismo no País. Quem não lembra, por acaso, de Serra, durante a campanha deste ano, citando um baiano (nordestino) como exemplo de criminoso? Ou ainda, em 2006, quando o tucano afirmou que o problema dos maus resultados da Educação em SP eram os "migrantes" (nordestinos)? Ou mesmo do discurso da derrota de Serra, quando ele parabeniza seus eleitores por terem "cavado uma grande trincheira" (para combater a quem)?

Todo esse clima beligerante e preconceituoso gerou uma predisposição em alguns eleitores, sobretudo os mais imaturos e/ou os mais fanáticos. Agora, junte-se ao mesmo caldo de rancor a decepção pela derrota e a inevitável "flauta" virtual contra os perdedores (nos orkuts, facebooks e twitters da vida) e está pronta a armadilha na qual caíram Mayara e mais uma centena de pessoas, que agora deverão responder pela ingenuidade de terem se deixado levar pelo "canto da sereia" entoado em discursos políticos udenistas e ampliado pela grande mídia.

Ainda sobre o tema, não deixa de ser preocupante a provocante enquete no ar atualmente no Agora on-line. Embora acessável do mundo inteiro, obviamente a maior parte dos leitores é do RS. Perguntados sobre o que acham de políticas de ação afirmativa como Bolsa Família e lei de cotas raciais, até a tarde desta terça-feira, 43% dos leitores respondiam considerar "incorretas, pois fazem quem produz bancar a população pobre e improdutiva".

Derrotada na eleição, a próxima bandeira levantada pelos grandes veículos é contra a Constituição da República, mais precisamente contra o art. 224, que prevê claramente a criação de um Conselho de Comunicação Social. Esse conselho - bem como seus similares em estados e municípios - visa simplesmente a garantir que os canais de radiodifusão (TVs e rádios), bens públicos por definição, não sujeitem-se apenas e tão somente a interesses de uns poucos grupos privados. É interessante notar que, apesar de constar na Constituição desde 1988 e de ter uma lei regulamentando o CCS desde 1991, atualmente não existe nenhum conselho operando no País, achacados que são justamente pela grande mídia, que os sataniza como "instrumentos de censura" à "liberdade de imprensa".

Ora, não há setor no mundo sem regulação. Por que haveria o setor de comunicação no Brasil ficar ao largo de qualquer regramento? A quem isso beneficia senão às próprias empresas que atingiram um patamar de megaconglomerados de mídia, agrupando rádios, jornais, televisões e portais de internet, tudo sob o opaco manto de um mesmo grupo? E por que nosso Congresso também não regulamenta os demais artigos da Constituição que tratam do mesmo setor, como o art. 220, § 5º (que veda expressamente o monopólio ou o oligopólio midiático) ou o 221 (que estimula o conteúdo regionalizado, a promoção da cultura, da educação e o respeito aos valores éticos e sociais)?

Estão aí ótimas bandeiras para nossa mídia empunhar nos próximos anos. De temas que, esperamos, deverão mesmo vir à tona durante o mandato de Dilma Rousseff. É uma questão de escolha. E, obviamente, de interesses e valores. Resta saber quais interesses e valores falarão mais alto.

Por Germano S. Leite

terça-feira, 2 de novembro de 2010

José Dirceu no Roda Viva

“O que eu preciso é que o Supremo me julgue, porque lá se vão cinco anos já...”

“Não existiu o mensalão”. “Você [se referindo ao jornalista Augusto Nunes] está dizendo que existiu; me dá o direito de dizer que não existiu!”.








quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Resposta a Noblat


Se fosse uns anos atrás, Noblat teria saído impune de suas ácidas críticas feitas em seu blog. Não que não as possa fazer... mas sequer poderia ser contraposto, já que o poder de dizer o discurso era restrito a uns poucos. Agora, felizmente, não é mais assim. E gente como Carlos Torres Moura, da pequena cidade mineira de Além Paraíba, pode externar o que pensa, com a mais ampla divulgação na internet. Mesmo a contragosto do Noblat e sua turma.
Em tempo: no blog, Ricardo Noblat diz que a Lula falta “caráter, nobreza de ânimo, sentimento, generosidade”.



Noblat

Quem é você para decidir pelo Brasil (e pela História) quem é grande ou quem deixa de ser? Quem lhe deu a procuração? O Globo? A Veja? O Estadão? A Folha?

Apresento-me: sou um brasileiro. Não sou do PT, nunca fui. Isso ajuda, porque do contrário você me desclassificaria, jogando-me na lata de lixo como uma bolinha de papel. Sou de sua geração. Nossa diferença é que minha educação formal foi pífia, a sua acadêmica. Não pude sequer estudar num dos melhores colégios secundários que o Brasil tinha na época (o Colégio de Cataguases, MG, onde eu morava) porque era só para ricos. Nas cidades pequenas, no início dos sessenta, sequer existiam colégios públicos. Frequentar uma universidade, como a Católica de Pernambuco em que você se formou, nem utopia era, era um delírio.

Informo só para deixar claro que entre nós existe uma pedra no meio do caminho. Minha origem é tipicamente “brasileira”, da gente cabralina que nasceu falando empedrado. A sua não. Isto não nos torna piores ou melhores do que ninguém, só nos faz diferentes. A mesma diferença que tem Luis Inácio em relação ao patriciado de anel, abotoadura & mestrado. Patronato que tomou conta da loja desde a época imperial.

O que você e uma vasta geração de serviçais jornalísticos passaram oito anos sem sequer tentar entender é que Lula não pertence à ortodoxia política. Foi o mesmo erro que a esquerda cometeu quando ele apareceu como líder sindical. Vamos dizer que esta equipe furiosa, sustentada por quatro famílias que formam o oligopólio da informação no eixo Rio-S.Paulo – uma delas, a do Globo, controlando também a maior rede de TV do país – não esteja movida pelo rancor. Coisa natural quando um feudo começa a dividir com o resto da nação as malas repletas de cédulas alopradas que a União lhe entrega em forma de publicidade. Daí a ira natural, pois aqui em Minas se diz que homem só briga por duas coisas: barra de saia ou barra de ouro.

O que me espanta é que, movidos pela repulsa, tenham deixado de perceber que o brasileiro não é dançarino de valsa, é passista de samba. O patuá que vocês querem enfiar em Lula é o do negrinho do pastoreio, obrigado a abaixar a cabeça quando ameaçado pelo relho. O sotaque que vocês gostam é o nhém-nhém-nhém grã-fino de FHC, o da simulação, da dissimulação, da bata paramentada por láureas universitárias. Não importa se o conteúdo é grosseiro, inoportuno ou hipócrita (“esqueçam o que eu escrevi”, “ tenho um pé na senzala” “o resultado foi um trabalho de Deus”). O que vale é a forma, o estilo envernizado.

As pessoas com quem converso não falam assim – falam como Lula. Elas também xingam quando são injustiçadas. Elas gritam quando não são ouvidas, esperneiam quando querem lhe tapar a boca. A uma imprensa desacostumada ao direito de resposta e viciada em montar manchetes falsas e armações ilimitadas (seu jornal chegou ao ponto de, há poucos dias, “manchetar” a “queda” de Dilma nas pesquisas, quando ela saiu do primeiro turno com 47% e já entrou no segundo com 53 ) ficou impossível falar com candura. Ao operário no poder vocês exigem a “liturgia” do cargo. Ao togado basta o cinismo.

Se houve erro nas falas de Lula isto não o faz menor, como você disse, imitando o Aécio. Gritos apaixonados durante uma disputa sórdida não diminuem a importância histórica de um governo que fez a maior revolução social de nossa História. E ainda querem que, no final de mandato, o presidente aguente calado a campanha eleitoral mais baixa, desqualificada e mesquinha desde que Collor levou a ex-mulher de Lula à TV.

Sordidez que foi iniciada por um vendaval apócrifo de ultrajes contra Dilma na internet, seguida das subterrâneas ações de Índio da Costa junto a igrejas e da covarde declaração de Monica Serra sobre a “matança de criancinhas”, enfiando o manto de Herodes em Dilma. Esse cambapé de uma candidata a primeira dama – que teve o desplante de viajar ao seu país paramentada de beata de procissão, carregando uma réplica da padroeira só para explorar o drama dos mineiros chilenos no horário eleitoral – passou em branco nos editoriais. Ela é “acadêmica”.

A esta senhora e ao seu marido você deveria também exigir “caráter, nobreza de ânimo, sentimento, generosidade”.

Você não vai “decidir” que Lula ficou menor, não. A História não está sendo mais escrita só por essa súcia de jornais e televisões à qual você pertence. Há centenas de pessoas que, de graça, sem soldos de marinhos, mesquitas, frias ou civitas, estão mostrando ao país o outro lado, a face oculta da lua. Se não houvesse a democracia da internet vocês continuariam ladrando sozinhos nas terras brasileiras, segurando nas rédeas o medo e o silêncio dos carneiros.

Carlos Torres Moura
Além Paraíba-MG

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Mídia ao Avesso (coluna no Jornal Agora)

Avisem a Folha SP: dessa vez o senador Romeu Tuma faleceu de verdade.

Quem assistiu ao debate de segunda-feira, na Record, pode ter ficado com a mesma impressão: a campanha praticamente acabou. Durante praticamente todo o tempo, ambos os candidatos foram fracos, sem retórica, inseguros, chatos e repetitivos. É quase como uma partida de pôquer onde já fizeram todas as apostas, e agora só aguardam que as cartas sejam abertas pra ver o que vai dar.


Dois analistas, contratados pelo Estadão para acompanhar o debate, sugeriram que Dilma teria ido melhor, enquanto Serra "não convenceu" em seu novo discurso, totalmente dissociado da ideologia do PSDB. Como não tenho as credenciais de "analista", me permito discordar do alto de minha ignorância. Na minha opinião, do último debate da Record não se extrai sequer o "menos pior".


Dilma, como que se desculpando pelo discurso enfadonho, já antecipava: "quero insistir", "vou continuar", "quero voltar ao tema"... E então, dê-lhe privatização. Nervosa ou cansada, a petista gaguejou diversas vezes, e não deu resposta a repetidas acusações de que seria responsável por supostos desmandos no setor elétrico.


Serra querendo colar no PT a pecha de privatista deve ter soado ridículo principalmente para os próprios seguidores da cartilha social democrata de verniz tucanista. Embora, no fundo, tenha ficado claro que o tucano não propriamente "atacava" uma suposta privatização feita pela Petrobras antes da confirmação do pré-sal. Pareceu mais uma "defesa antecipada" do que faria, se eleito fosse. Algo como "se até vocês [petistas] fizeram, por que eu não faria, se eleito?"


Que venha o domingo de uma vez.


Por aqui, o PMDB parece cada vez mais "desintegrado". Enquanto boa parte do partido, no RS, pendeu para a candidatura tucana à presidência, alguns nomes da sigla preferiram a dissidência estadual, aderindo ao PMDB nacional, que apoia Dilma e Temer. Na semana passada, em visita ao Estado, Temer teve a companhia (e o apoio aberto) de Mendes Ribeiro Filho, Álvaro Boessio e o rio-grandino Sandro Boka. O racha se deu também na coligação do PMDB com o PDT. vieira da Cunha e Pompeo de Mattos (este último, companheiro de Fogaça na chapa derrotada por Tarso) também "dilmaram".


Com Serra, estão Fogaça, Rigotto e a executiva peemedebista, que declarou "posição favorável" ao tucano, mas deixando os filiados liberados para votarem em qualquer dos dois candidatos. Ao Agora, durante a visita de Serra a Rio Grande, o prefeito do Rio Grande, Fábio Branco, disse que não tinha ainda posição definida, mas adiantou que a "oposição radical" que o PT faz no município seria um "obstáculo" a eventual apoio seu à Dilma.


Alguns insistem em que não passa de "teoria da conspiração" achar que a grande imprensa optou veladamente por Serra e manipula seus noticiários a favor dele. Então, como explicar o modo como noticiaram o caso do jornalista Amaury Ribeiro Jr., omitindo a informação de que o material por ele coletado contra o candidato do PSDB tinha DNA tucano, servindo para proteger Aécio em uma disputa com Serra pela indicação do partido? E mais: como se explica que a grande mídia destine capas de jornais e revistas a denúncias de grampos sem áudio ou a acusações sem provas feitas por criminosos contumazes, mas não noticie uma linha sobre a farta documentação distribuída na segunda-feira aos colegas por Amaury, e que liga a campanha de José Serra à lavagem de dinheiro em paraísos fiscais?


Está tudo lá: números de conta, depósitos na conta Beacon Hill em valores que passam de US$ 1,4 milhão, ligação entre Serra, Gregório Marin Preciado e Ricardo sérgio (diretor do BB no governo FHC-Serra), sociedade entre Verônica Serra e Verônica Dantas... Tudo à disposição, prontinho para uma bela capa de Veja ou manchete da Folha e do Globo. Quem sabe até seja publicado, após as eleições!


Mino Carta escreveu: "A fidelidade canina à verdade factual é, a meu ver, o primeiro requisito da prática do jornalismo honesto". Quando publiquei, na semana passada, reportagem sobre o indiciamento do secretário de Trânsito, Enoc Guimarães, nada fiz senão me ater à verdade factual. E continuarei agindo assim, apesar de
eventuais ameaças, que serão tratadas na esfera devida. Em tempo: até onde sei, o secretário não tem qualquer participação nesta atitude agressiva e antidemocrática, tomada deliberadamente por terceiros.

(publicada no Jornal Agora, em 27/10/2010)

Os cães de guarda do Serra em ação

Emiliano José *

Estamos a seis dias das eleições. Não sei por que, mas logo me veio à mente o título do notável livro de John Reed – Os dez dias que abalaram o mundo. É uma notável reportagem sobre a aurora da Revolução Russa. A lembrança talvez venha porque tenho absoluta convicção de que esses próximos dez dias são fundamentais para o nosso destino, para o destino do povo brasileiro. E mais do que isso, e é disso que quero tratar, serão dias de um estrebuchar midiático nunca antes visto neste País. Nós não temos o direito de nos enganar quanto a isso. Não podemos nos iludir.

Está posto que a mídia no Brasil é uma das mais partidarizadas do mundo. Não há no Brasil, ao menos se consideramos o seleto núcleo de famílias de onde sai as diretivas para o resto do País, não há aquilo que no jornalismo se denomina cobertura, que implica um olhar sobre o fato o mais verdadeiro possível. O núcleo é constituído pelas famílias que controlam os complexos midiáticos Globo, Folha, Estadão e Abril. Esse é o secretariado do Comitê central do partido político midiático brasileiro. E está posto que a ação deles nesses 10 dias será intensa. E que não haverá qualquer compromisso com os fatos.

O candidato do partido é Serra – ou será que há ainda quem duvide? E por esse candidato eles – os barões midiáticos – continuarão a fazer mais do mesmo – utilizar os fatos para construir as versões que melhor atenderem aos interesses de Serra. Lula, antes da divulgação do relatório da Polícia Federal sobre os supostos dossiês sobre os tucanos, disse que o problema eram sempre as versões, e acertou em cheio. Deturparam tudo. Os tucanos se engalfinham e o PT é culpado.

Os barões midiáticos atuarão nesses dias com uma intensidade maior do que tudo aquilo que nós já vimos, embora o que se viu até agora em nossa história não seja pouco. Estão considerando que esta é a eleição da vida deles. A expectativa de continuarem fora do controle direto do Estado os preocupa e por isso cotidianamente a cobertura e os colunistas se empenham todo o tempo em subsidiar a oposição, em municiar o candidato do partido.

Que não me alertem sobre o perigo de uma visão conspirativa.

A mídia brasileira, ao menos aquele núcleo hegemônico, conspira há muito tempo, e sempre a favor das classes dominantes, dos setores mais conservadores da sociedade brasileiros, dos eternos detentores de privilégios. Eles não guardam sequer o recato de cumprir os manuais de redação, aquelas coisas do beabá do jornalismo, que se aprende nos primeiros semestres das escolas de comunicação. No partido político midiático, que o deputado Fernando Ferro chamou de Partido da Imprensa Golpista, o famoso PIG, a pauta tem sempre direção, orientação política, e ao reportariado cabe cumpri-la, sem discussão. Aqui e ali, alguma distração.

Vou insistir: não temos o direito da ilusão. Não esperemos nenhuma atitude séria, honesta do partido político midiático. Aliás, se voltamos ao passado, e não precisa ser tão remoto, vamos ver sempre esse partido atuando em favor das causas mais conservadoras, sem temer pelas conseqüências. Quem quiser, dê uma lida no capítulo denominado Mar de Lama, do livro de Flávio Tavares denominado O dia em que Getúlio matou Allende e outras novelas do poder. Nesse capítulo, fica evidente como a mídia orientou toda a ação política para derrubar Getúlio, e que terminou com o suicídio do presidente.

Quem não se lembra da atividade militante de nossa mídia a favor do golpe de 1964, salvo sempre as exceções, e nesse caso só Última Hora? Não importa que daí sobreviesse, como ocorreu, um regime de terror e morte. E durante a ditadura, a mídia teve sempre uma atitude complacente, como denomina o jornalista e professor Bernardo Kucinski em seu livro Jornalistas e Revolucionários – nos tempos da imprensa alternativa. Complacente e muitas vezes conivente com a ditadura.

Quem quiser conhecer um pouco da atitude do Grupo Folhas durante a ditadura é só ler o extraordinário livro de Beatriz Kushnir – Cães de Guarda – Jornalistas e Censores. Ali fica evidente como o Grupo Folhas foi um entusiasta defensor da ditadura militar. O Estadão, se sabe, foi sempre um jornal vinculado à direita. Teve o mérito, ao menos, agora, de declarar o voto em Serra. E mostrou a sua verdadeira face ao censurar Maria Rita Khel por publicar artigo defendendo o Bolsa Família. Do grupo Civita, há pouco que dizer, por desnecessário. A revista Veja é uma excrescência, um panfleto da extrema-direita. Do grupo Globo, que dizer? Há uma caudalosa bibliografia a respeito, que a desnuda, e que eu não vou perder tempo em citá-la. Era porta-voz da ditadura, esteve sempre ao lado dos privilegiados e se aliou ao longo de sua história, sem qualquer variação, aos mais destacados homens da direita brasileira.

Por tudo isso, quero reiterar: vamos manter acesa a idéia de que é preciso mostrar o que esse projeto político em curso, com Lula à frente, fez pelo povo brasileiro, as extraordinárias mudanças que estamos fazendo no Brasil. E, por todos os meios que tivermos, no leito da democracia, desmontar o festival de mentiras, de calúnias, de sordidez que vem sendo orquestrado pela campanha de Serra, com a participação decisiva do partido político midiático.

Mais do que nunca é necessário dar adeus às ilusões de uma mídia com características democráticas no Brasil atual. E é necessário ter clareza de que temos que dar passos firmes na direção da democratização da mídia, por mais que ela estrebuche. A imprensa tem que cumprir com suas obrigações constitucionais. Não pode se constituir em partido político disfarçando-se de imprensa. A democracia há de chegar à mídia também. Para que o país avance. E para que façamos isso é preciso eleger Dilma presidente.

* Jornalista, escritor, prof. Dr. em Comunicação e Cultura Contemporâneas.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Coluna Mídia ao Avesso (Jornal Agora)

Apesar das limitações inerentes a uma criação humana (afinal, todo ser humano é falho), o judiciário ainda é a derradeira esperança para aqueles que esperam por justiça no âmbito terreno (se é que existe outro "âmbito" além deste). Esta introdução, um tanto quanto óbvia, comemora duas ações ajuizadas recentemente, patrocinadas pelo eminente jurista Fábio Konder Comparato. Uma é relativa a um caso de tortura e morte durante a ditadura militar; a outra é uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) relacionada à regulamentação das empresas de comunicação no Brasil.

A ação relativa ao período da ditadura ("ditabranda", segundo a Folha de SP) é movida pelos familiares do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, torturado e assassinado nas dependências do DOI-CODI paulista, supostamente a mando do arrogante coronel Brilhante Ustra, considerado um dos principais carrascos da ditadura militar.

A morte de Merlino foi escondida pelos órgãos repressores que, dias depois, disseram que o jornalista teria "cometido suicídio", ao se jogar em frente a um "veículo não identificado" na BR-116, quando era levado a Porto Alegre para "reconhecimento de colegas militantes" (leia-se "delação sob tortura"). A verdade veio à tona tempos mais tarde: o jornalista fora torturado por cerca de 24 horas, na sede do DOI-CODI paulista, e abandonado numa solitária até a morte.

Na missa de sétimo dia de Merlino, a hipócrita crueldade: os mesmos agentes que arrancaram Merlino da casa de sua família para devolver-lhe apenas morto ocupavam os primeiros bancos da igreja, e deram os pêsames à mãe enlutada.

Quem lê o relato desta e outras atrocidades cometidas nos porões da ditadura - defendida, diga-se de passagem, inclusive em editorias de alguns dos principais veículos de comunicação da época - jamais poderá se colocar a favor de uma anistia que alcance torturadores e assassinos.

A outra ação, protocolada nesta terça-feira junto ao STF, trata-se de uma Adin por omissão. Grosso modo, é uma ação que visa a mostrar que dispositivos da Constituição estão sendo descumpridos em função da omissão do Congresso Nacional, ao deixar de editar as leis que regulamentariam determinado tema. No caso, questões relativas à regulamentação da imprensa. A ação pede regulamentação do direito de resposta, sem o qual a imprensa pode atacar reputações quase que impunemente. Pede ainda a regulamentação do art. 221 da CF, que trata do conteúdo das programações de emissoras de rádio e TV, respeitando "valores éticos e sociais".

Mas o pedido mais importante na ação é quanto ao que pede que o Congresso regulamente o art. 220 da CF, o qual proíbe o monopólio ou oligopólio dos meios de comunicação social. Que, atualmente, ocorre descaradamente no País, com óbvios prejuízos à formação da chamada "opinião pública", manipulada pelas diretrizes de poucas famílias detentoras de poderosos conglomerados de comunicação.

O momento atual, quando se observa a desproporcional influência exercida pela grande mídia em prol de uma das candidaturas à presidência (e, por consequência, de um determinado modelo político), é mais que propício a uma ação como esta. É fundamental.

A mídia tradicional perde força quando confrontada com novos modelos mais "horizontais" de comunicação, como ocorre hoje na internet, em blogs, fóruns de discussão, twitter etc. Ainda assim (e apesar do festival de manipulação patrocinado por alguns veículos), continua contando com parcela significativa de crédito junto à população. Me coloco como exemplo. Quando saiu a informação, no Facebook, de que uma ex-aluna da esposa de José Serra teria admitido ter feito aborto, hesitei em acreditar, e até mesmo sugeri que não disseminassem o fato, pois poderia ser uma armadilha para vitimizar o tucano. Só fui acreditar na veracidade quando vi a ex-aluna confirmar a informação a jornais tradicionais, como aos estrangeiros Página 12, Clarín, La Nacion, ou mesmo ao brasileiro Folha.

Em tempo: não entro no mérito do aborto em si. Creio que cabe muito mais às mulheres esta discussão. A questão é a hipocrisia contida nas críticas de quem, supostamente, teria praticado o mesmo ato.

O vice-presidente do Congresso Mundial Judeu, rabino Marc Schneider, disse nesta semana que acusar Israel de promover ocupação ilegal nos territórios palestinos seria "um insulto" a Israel. Pois bem, sr. rabino: então eu (e a quase totalidade da comunidade internacional) mantenho essa opinião, baseado principalmente (entre outras) nas resoluções nºs 446 e 478 da ONU. Ou seja, se este argumento é um insulto, continuarei a insultar Israel até que este Estado fascista pare de insultar os direitos humanos e o Direito Internacional.

Resolução 446 da ONU: (...) a criação de Assentamento israelita [assentamentos] por parte de Israel nos territórios árabes ocupados desde 1967 não tem validade legal e constitui um sério obstáculo para o lucro de uma paz completa...
Resolução 478 da ONU: (...) A resolução "censura nos termos mais enérgicos" a Lei de Jerusalém [aprovada por Israel, considerando Jerusalém como "cidade inteira e unificada, como capital de Israel"] e afirma que esta lei é uma violação do direito internacional e não afecta à contínua aplicabilidad em Jerusalém do Convênio de Genebra relativo à protecção de pessoas civis em tempo de guerra. Ademais, determina que a Lei de Jerusalém e todas as demais medidas e actos legislativos e administrativos adoptados por Israel, a potência ocupante, que têm alterado ou pretendam alterar o carácter e o estatuto de Jerusalém "são nulos e carentes de valor e devem deixar-se sem efeito imediatamente"...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Berlusconi assusta a Europa com a sua Lei da Mordaça


De Roma, especial para TERRA MAGAZINE

–1. No Brasil, já se tentou, – por projetos de lei e de emenda constitucional –, amordaçar a imprensa. Também o ministério Público, defensor da sociedade, que o ministro Nelson Jobim entende que não está legitimado a investigar a materialidade e autoria de crimes. Em outras palavras e para deixar frisado o ridículo, o Ministério Público, que tem o poder-dever de propor a ação criminal pública, não pode colher elementos para propor tal ação.

Hoje, no Brasil, a mordaça tem aparecido em canhestras decisões judiciais. Todos lembram o caso do filho do senador Sarney. Ele logrou, por decisão judicial, silenciar o jornal O Estado de S.Paulo, que, com base no interesse público, informou, até com apoioe em interceptação telefônica vazada, as suas grossas falcatruas.

Para o projeto de Berlusconi, – já aprovado no Senado onde tem larga maioria –, nenhum dado de investigação pode ser revelado pela mídia enquanto não houver decisão condenatória com trânsito em julgado. Para se ter idéia, a duração média de um processo sobre corrupção na Itália é superior a cinco anos. Tão moroso como no Brasil.
Notícias sobre crimes consumados ou com reflexos na Itália, – por um Berlusconi que fala que quer assegurar a “privacidade” dos cidadãos mas é o principal beneficiário da medida –, só podem ser dadas, pela imprensa, depois do trânsito em julgado da sentença condenatória, enquadrando-se no tipo penal não só o responsável pelo vazamento mas, também, o responsável pelo veículo informativo de mídia e o jornalista subscritor ou autor da matéria.

Dois ministros de Berlusconi, – depois do informado e comprovado pela imprensa –, demitiram-se em casos de corrupção flagrante. Um deles, responsável pela pasta de obras públicas, ganhou de presente, de um construtor que vencia as grandes licitações, um luxuoso e valioso apartamento com vista para o Coliseu. O outro ministro que caiu fora recebeu, em doação feita pela Igreja através da Propaganda Fede, um apartamento na valorizada via dei Prefetti, próximo à famosa piazza di Spagna. Em troca, o estado laico italiano reformou prédios da Igreja (Propaganda Fede) no supervalorizado centro histórico romano.

Caso estivesse em vigor a lei da mordaça de Berlusconi, nada poderia ser informado sobre esses dois supracitados ex-ministros. Nem o que um deles, Scajola, disse em entrevista,ou seja, de não saber quem pagou pelo apartamento onde mora com vista ao Coliseo, passado e registrado em seu nome.

–2. Amanhã, na Itália, os jornais, as rádios, as televisões, as agências de noticiais e as infovias informativas estarão em greve, por 24 horas.

O silêncio nacional só será quebrado, evidentemente, pelos veículos pertencentes ao clã Berlusconi. Por antidemocrática a ponto de aniquilar o direito do cidadão de ser informado, a iniciativa de Berlusconi, que joga pesado para a aprovação, assusta e preocupa a Europa. Uma Europa que viveu, no começo da semana, uma animação em face da decisão do povo polonês. Este preferiu a integração européia e, portanto, afastou o candidato cato-fascista Kazinsky, irmão gêmeo do antigo chefe de governo falecido em recente desastre aéreo. Kazinsky, por ser populistas, contou com o apoio da Igreja católica.

–3. Berlusconi, depois da grande manifestação popular ocorrida em 1 de julho passado na praça Navona (onde fica o prédio da embaixada do Brasil), reagiu em estilo mussoliniano. Pediu as italianos uma grave, ou seja, que não comprassem e nem lessem os jornais que lhe fazem oposição.

Para se ter idéia e caso essa mordaça berlusconiana entrasse em vigor no Brasil, nada se poderia ser publicado sobre os mensalões. Arruda, por exemplo, continuaria governador, pois nada se saberia sobre as conversas telefônicas que lhe comprometiam. Na França, o escândalo Sarkozy-L’Oreal, com fundos recolhidos ilegalmente para a sua campanha e envelopes mensais de dinheiro entregues quando era prefeito, não poderia ser informado pela mídia..

–4. A greve de amanhã representa um protesto a tutelar os cidadãos, cuja mordaça de Berlusconi nega-lhe o direito de ser livremente informado: o direito constitucional que todo o cidadão possui, numa democracia, de saber e conhecer. Tudo para que possa, livremente, formular um juízo.

–5. PANO RÁPIDO. “Nós estamos a preparar a defesa dos que têm a privacidade devassada”, sustenta Berlusconi sem corar. Na verdade, trata-se de uma tutela em causa própria: uma auto-tutela berlusconiana. Ela conta com o apoio dos mafiosos, por evidente. A mordaça de Berlusconi não é para a defesa da malavita, para usar a expressão consagrada nos filmes de Federico Fellini.

– Wálter Fanganiello Maierovitch – jurista e professor

terça-feira, 11 de maio de 2010

O Globo e o Tijolaço (ou "Não te fresqueia, guri!")


A voz do dono, o dono da voz e os donos de tudo
terça-feira, 11 maio, 2010 às 10:32

A capa e o conteúdo do jornal O Globo de hoje revelaram a Serra o que um dia, num único jornal do sistema, pode fazer à sua candidatura. Não que seja diferente ao que fazem dúzias de vezes com Dilma, mas foi, como dizia uma música dos anos 60, “a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”.

Acostumado a mandar demitir repórteres com telefonemas, Serra perdeu a paciencia com “os comunistas do Dr. Roberto” do século 21. “Dos meus comunistas, cuido eu”, teria dito “o mais velho”, em plena ditadura, ao “ministro da justiça” (assim mesmo, entre aspas e em minúsculas) Armando Falcão. Embora não sejam mais comunistas e o Dr. Roberto não esteja mais aí, Serra mexeu num vespeiro, muito maior que o cada vez mais frágil jornal O Globo. Mexeu na Globo, no centro de comando da elite brasileira.

Embora a Miriam Leitão tenha ficado publicamente apatetada e se contido – a vingança, como dizia o personagem do Chico Anísio, “será maligna”. A edição do jornal impresso de hoje, que reproduzo aí ao lado, já mostra isso. A foto de um Serra que parece doente, alquebrado, sendo seguro na escada como um inválido que não se sustenta é o tipo de maldade atroz que ele, pela primeira vez, tem de encarar no jornal.

O título é de uma clareza solar. Traduzido, quer dizer: Serra, este é o Serra que queremos. Oposição, não pseudolulista. O império não quer almas pela metade, ele quer a vassalagem incondicional. Ele quer alguém que se ajoelhe em seu altar, renegue e maldiga sua fé passada e proclame sua conversão em alto e bom som, como fez FHC em 1995, ao dizer, já em seu discurso de posse, que vinha para destruir a “Era Vargas” e entregar, como nunca se entregara nem na ditadura, o Brasil aos grupos econômicos daqui e de fora.

Lá dentro do jornal, coube a Lord Merval Pereira colocar a coisa em letras explícitas: fala em ressurreição do ranzinza e de Serra ser o “centralizador” e “mais intervencionista do que Dilma”. Ao lado, seguia a ironia fotográfica, com uma grande foto de Dilma sorridente, ao lado de Antonio Palloci, o “homem de confiança” do mercado nos primeiros tempos do Governo Lula.

Serra tem sorte de que o Dr. Roberto não esteja mais aí, para não correr o risco de sofrer mais um dos “castigos” que gosta de impor aos “insolentes”: ser “demitido” com um telefonema. Mas vai ter de fazer seus atos de contrição, ficar comportadinho e parar de achar que é alguém com direito a ter posições próprias e pessoais, mesmo que sob a fantasia que os marqueteiros lhe desenharam.

Serra tem que exorcizar de vez suas convicções do passado, sepultar o antigo Serra que pensava no papel do Estado, no desenvolvimento, que, inconformado com a morte que a traição lhe deu, brota em espasmos como o de ontem. Não se lhe exige apenas o papel de agente da direita, querem a conversão completa ao papel que assumiu. De Fausto não se queria parte, mas tudo.
Dante Aligheri escreveu na sua Divina Comédia que, nos umbrais do Inferno havia talhada uma frase: Abandona toda esperança, vós que entrais.

A gauchada, que não leu Dante, se expressa mais claramente: “não te fresqueia, guri”.

por Brizola Neto, de O Tijolaço

Folha: se não é pra São Paulo, não existe

É mais que óbvio que os chamados "jornais de alcance nacional", embora assim queiram ser rotulados, apenas reproduzem os modelos de concentração econômica impostos nos seus estados sede. Além disso, alguns, como a Folha, já não escondem que sequer as informações chave de determinados setores são relegadas a terceiro plano (ou mesmo sumariamente omitidas), uma vez que o que interessa é alimentar os factóides contra determinados grupos políticos.
Hoje, em Rio Grande, a revista Voto organizou o seminário "Rio Grande - Onde o Rio Grande Renasce". O mote é o impressionante desenvolvimento do município e região, em função do polo naval que nasce, incentivado pela política do governo federal direcionada a esse setor (nos mesmos moldes de Suape, em PE).
A ex-ministra Dilma foi uma das palestrantes. Entre vários outros fatos jornalísticos, anunciou que o governo deve investir US$ 2,68 bilhões na cidade, para a integração de plataformas e construção de cascos de plataformas em série nos novos estaleiros que por aqui pipocam.
Se procurarmos algo na Folha Online de hoje, encontraremos duas matérias sobre a visita de Dilma a Rio Grande. Da lavra do jornalista Graciliano Rocha, ambas "esqueceram" de focar no tema do seminário, nos investimentos no setor naval e no desenvolvimento da região. Afinal, haviam temas "mais relevantes", a saber:

- Dilma minimizou a importância de nunca ter concorrido à eleição;
- a posição de Dilma (de novo) sobre a autonomia do BC;
- o que a pré-candidata acha sobre eventual afastamento de Tuma Jr., novo alvo da própria Folha;
- Neymar e Ganso devem ir à Copa?

De resto, nada importa mesmo. Afinal, nem é sobre São Paulo.



Seguem as matérias publicadas pela Folha:

11/05/2010 - 12h55
Dilma defende convocação de Neymar e Ganso
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GRACILIANO ROCHA
da Agência Folha, em Rio Grande (RS)

Em Rio Grande (RS), onde participa de seminário sobre a indústria naval, a pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, defendeu a convocação de Neymar e Ganso para disputar a Copa do Mundo pela seleção brasileira.

Ela foi questionada se costuma assistir a jogos de futebol. "Eu via, parei de ver e voltei a ver. O Neymar e o Ganso têm esse capacidade de fazer a gente olhar [futebol]. Têm esse lado brincalhão e alegre."




11/05/2010 - 15h20
Dilma diz ter acumulado experiência administrativa para governar o país
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GRACILIANO ROCHA
da Agência Folha, em Rio Grande (RS)

A pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, disse hoje em Rio Grande (RS) que acumulou experiência administrativa para governar o país e minimizou a importância de jamais ter concorrido em uma eleição.

"Fico pensando se às vezes não é bom isso, porque seria uma lufada de ar novo numa situação mais tradicional de fazer política", disse ela.

Sobre eventuais mudanças no Banco Central, caso fosse eleita presidente, Dilma disse que "em time que está ganhando não se mexe".

Ontem, o pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, afirmou que, se houver "erros calamitosos" em políticas do BC, o presidente deve interferir e opinar.

Dilma também foi questionada sobre a investigação contra o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, suspeito de ligação com um suposto integrante da máfia chinesa.

"Se ele tiver envolvimento, tem que se afastar. Não sei qual a gravidade, não tenho como avaliar. Estou falando em termos de conceito. O método é que a gente não julga ninguém previamente porque você passa a ter uma política de condenação sem direito de defesa. Se tiver fundamento a acusação, afasta", afirmou Dilma.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O abismo da Folha


Não é só o mundo novo da internet que está afetando os números da Folha de São Paulo, há pouco tempo o maior jornal do país em circulação. Erros toscos de avaliação e a aposta de que ainda teria condições de manipular a opinião pública (talvez na esperança de eleger um governo amigo, que recupere os outrora pesados recursos federais investidos nos veículos da empresa) afundaram os gráficos na sala de comando do grupo Folha da Manhã.


É impressionante como a direção entrou em um círculo vicioso, que é quase de automutilação. Após um erro que lhe custa credibilidade e leitores, a Folha comete outro, e mais outro, e mais outro, como se acreditasse que "o novo plano, agora sim, será infalível". Recentemente, isto se deu de forma inequívoca na campanha pró Daniel Dantas e no caso da ficha falsa da ministra Dilma. Na semana passada, porém, o salto para baixo foi ainda mais vertiginoso, com a publicação de artigo que relata o suposto caso do "menino do MEP".


Como fundamento do resultado desastroso desta estratégia suicida, citem-se números. Em outubro de 1996, a venda avulsa da Folha aos domingos chegou a 489 mil exemplares. Atualmente, a média diária nacional, entre janeiro a setembro de 2009, bateu em escassos 21.849 exemplares.


Mas não sei o que é mais impactante, se números brutos, globais, ou se pontuais declarações de ex-leitores. Seguem algumas declarações, retiradas de blogs variados:


1/12/2009 às 21:37
Também cancelei a assinatura da Folha depois de mais de 20 anos. Cansei (e que D’urso e Hebe não me cobrem royalties) de ver a informação ser estuprada e a verdade currada diariamente. Também estou tirando o time do Uol.


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1/12/2009 às 21:44
Me emociono ao ver atitudes como essa, até mesmo porque estes oligopólios cometem cometem e cometem crimes como que num movimento inercial.Erram e continuam. E continuam.Até o dia em que, por não perceberem o movimento inercial em que estão, quebram a cara.Aí acordam.Às vezes acordam tarde demais.


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1/12/2009 às 21:51
a ditabranda foi o fim da picada para mim. o engraçado é que vendedores de assinatura da fsp me ligaram, tive que jogar na cara. E ainda recebi email da fsp; e olha que nunca fui assinante dessa porcaria.


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1/12/2009 às 22:07
Acabei de enviar este email cancelando minha assinatura da UOL:From: Alcino DembyTo: ombudsmandouol@uol.com.brSent: Tuesday, December 01, 2009 10:07 PMSubject: Cancelamento de assinatura
Boa noite,Desejo cancelar minha assinatura da UOL e estou formalizando este distrato através do canal do Ombudsman, considerando a inexistência no UOL SAC, seja no site ou no atendimento telefônico, de uma opção que explicitamente conduza ao encaminhamento desta solicitação. O cancelamento da assinatura UOL é um protesto contra o jornalismo irresponsável que vem sendo praticado pelo grupo Folha de São Paulo, tal como, há algum tempo, também cancelei minha assinatura do jornal Folha de São Paulo.


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Prudêncio de araújo disse:
1/12/2009 às 21:08
Estou pensando em assinar a folha só para ter o prazer de cancelá-la depois.


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E por aí vai...