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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Yeda volta a ser ré em ação do Detran



A governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), não está imune à Lei de Improbidade Administrativa. O ministro Humberto Martins, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), deu decisão favorável a recurso do Ministério Público Federal para definir que a Lei n. 8.429/92 é aplicável também aos agentes políticos, o que inclui a governadora – acusada de envolvimento em um caso de improbidade que tramita na Justiça Federal.

A ação de improbidade, movida pelo Ministério Público na Justiça Federal de Santa Maria (RS), foi consequência de operação policial que apontou desvio de recursos no Detran gaúcho, entre 2003 e 2007. Segundo se informou na época da operação, as fraudes alcançariam o valor de R$ 44 milhões. Além da governadora, foram acusadas mais oito pessoas, entre elas o marido dela, Carlos Crusius, e três deputados.

A governadora recorreu ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região, sediado em Porto Alegre, alegando que a Lei de Improbidade não seria aplicável aos agentes políticos, os quais apenas estariam sujeitos a responder por crime de responsabilidade, tratado em lei específica (Lei n. 1.079/1950). O Tribunal Regional acatou a tese dos advogados da governadora, que assim deixou a condição de ré na ação de improbidade. O Ministério Público entrou, então, com recurso no STJ.

Ao analisar o caso, o ministro Humberto Martins afirmou que a decisão do Tribunal Regional “foi proferida em claro confronto com a jurisprudência do STJ, na medida em que o entendimento aqui encampado é o de que os termos da Lei n. 8.429/92 aplicam-se, sim, aos agentes políticos”. Ele disse que essa posição vem sendo adotada por ambas as turmas julgadoras do STJ que tratam de direito público – a Primeira e a Segunda Turmas.

Num dos precedentes citados pelo relator, a Primeira Turma manifestou-se no sentido de que “o caráter sancionador da Lei n. 8.429/92 é aplicável aos agentes públicos que, por ação ou omissão, violem os deveres de honestidade, imparcialidade, legalidade, lealdade às instituições e, notadamente, importem em enriquecimento ilícito, causem prejuízo ao erário público e atentem contra os princípios da administração pública, compreendida nesse tópico a lesão à moralidade administrativa”.

(Da assessoria do STJ)

Adendo:
Yeda Crusius foi acusada pelo Ministério Público Federal de integrar uma quadrilha criminosa instalada no aparelho de Estado. Além da governadora, a ação civil pública de improbidade administrativa denunciou: Carlos Crusius (ex-marido da governadora), José Otávio Germano (deputado federal do PP que foi secretário estadual de Segurança no governo Germano Rigotto; segundo a Operação Rodin, a fraude teria iniciado em 2003 durante o governo do peemedebista Rigotto); Luiz Fernando Zachia (deputado estadual do PMDB); Frederico Antunes (deputado estadual do PP), João Luiz Vargas (então presidente do Tribunal de Contas do Estado); Rubens Bordini (vice-presidente do Banrisul e ex-tesoureiro da campanha de Yeda) e Walna Villaris Meneses (assessora de Yeda Crusius).
Segundo o MPF, “os demandados agiram de forma imoral, pessoal, desleal, desonesta e ímproba, valendo-se da condição de ou em conjunto com agentes políticos e servidores públicos para obterem vantagens pessoais, utilizando-se dos respectivos cargos, de bens públicos e verbas públicas afetadas ao desenvolvimento de serviços públicos em área sujeita às suas atribuições funcionais e políticas.”

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Compromisso com a sociedade

Marcos Ronchetti: Governadora, tem... chegou às suas mãos uma lista com um nome de Gelson Stock.

Yeda Crusius: Stocker.

Ronchetti: Esse é fundador do PSDB. Fez campanha nacional, ele ajudou na campanha nacional do nosso ex-governador de São Paulo, lá... Esqueci o nome, o que morreu...

Yeda: Mario Covas?

Ronchetti: Mário Covas.

Yeda: Oh, que legal!

Ronchetti: Ele fez, é fundador, ele é no meio dele ele foi aprovadíssimo. Enfim, para essa indicação de desembargador, se a senhora puder ajudar, eu estou lhe dando as recomendações dele que é uma pessoa de altíssima competência.

Yeda: Muito obrigada. Sendo um dos três já é uma prova de que ele é de altíssima competência. Eu já busquei saber também dele né... É uma maravilha que a gente tenha alguém desse porte, né?

Ronchetti: Ele é, pode ter certeza.

Yeda: E também eu aprendi durante esse ano, viu, Ronchetti, que eu vou usar a caneta para nomear quem tenha compromisso com o governo.

Ronchetti: Ele tem. Ele é do PSDB desde a sua fundação. Ajudou na minha primeira campanha, minha segunda campanha, ele é fundador nacional do PSDB.

Yeda: Que ótimo. Tá bom, obrigada pela indicação.




O diálogo acima, que pode ser ouvido aqui, em primeiro lugar responde a uma antiga provocação da governadora Yeda, que questionava: "existem gravações falando da governadora, mas onde estão as gravações da governadora?".


Mas, muito mais do que isso, expõe um dos fatos mais graves desde que uma quantidade nunca antes vista de lama começou a escorrer pelas escadas do Piratini. Quando agradece e aceita a indicação vinda do prefeito Ronchetti - investigado pelo Ministério Público por supostamente desviar mais de R$ 5 milhões que deveriam ser usados para alimentar crianças nas escolas públicas de Canoas -, sugerindo a nomeação de um desembargador cujo credenciamento mais destacado por Ronchetti é sua ligação histórica com o PSDB, Yeda demonstra claramente a ideia que tem com relação aos limites de cada poder.

O incansável advogado da governadora alega que a gravação é irrelevante (e está no papel dele ao fazê-lo). Mas, cá entre nós: irrelevante uma ova! Ao afirmar que somente vai usar a caneta para "nomear quem tenha compromisso com o governo", Yeda escancara seu modo de pensar, seu novo jeito de governar, pelo qual acredita que mesmo o Judiciário tem que estar a serviço do príncipe (ou da princesa). Está redondamente equivocada! Os magistrados devem comprometimento apenas e tão somente ao Estado, entendido aqui não como o ente estatal que exerce poder sobre a população, mas sim como um ente abstrato que tem na sociedade sua razão primeira e última de existir.

Há pouco que alegar em contrário. A gravação é clara, cristalina. E a pronta resposta do prefeito investigado, ao confirmar à governadora que aquele seu indicado realmente tinha o compromisso buscado, é inequívoca: "Ele tem [compromisso]. Ele é do PSDB desde a sua fundação".

Triste constatação nos traz estes poucos minutos de diálogo! A estrutura tripartite de poder pressupõe um sistema no qual a sociedade se protege da força que o Estado lhe impõe. Mas, quando o parlamento se omite de seu papel e protege o príncipe, e quando o Judiciário está "comprometido com o governo", o que se tem é um pobre povo desprotegido, à mercê de um governante despótico. E o que menos se tem é um Estado de Direito.

Dessa vez, a governadora foi longe demais!


Em tempo: será que nem isso vai ser suficiente para convencer nossos deputados a cumprirem sua obrigação, investigando a fundo tudo o que ocorreu neste trágico governo?

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Sinuka de biko

Sandro "Boka" deve ser um dos dois deputados do PMDB a compor a CPI da Corrupção, na Assembleia gaúcha. A informação ainda não foi confirmada, mas o rumor é forte, pois vem de uma fonte próxima ao partido.

Se foi mesmo convocado, Boka tem poucas opções que não sejam aceitar a missão... por mais espinhosa que seja. Como suplente, ocupando a vaga do deputado Marco Alba (chamado para a secretaria de Habitação e Saneamento do governo Yeda), dizer não à indicação pode significar para o rio-grandino deixar a Assembleia. E, ao dizer sim, também terá pouco espaço, durante a CPI, para fazer qualquer coisa diferente do que defender a governadora e os outros integrantes do governo, acusados de improbidade administrativa e de participarem, como intermediários ou beneficiários, de um dos maiores casos de desvio de dinheiro público até hoje no RS.

Por tudo isso, a situação atual do deputado rio-grandino pelo PMDB não é das mais cômodas. Até então ao largo de maiores críticas e de assuntos polêmicos, e com uma atuação importante principalmente na Frente Parlamentar de Portos e Hidrovias, mas também nas áreas de capacitação profissional para o pólo naval e na pesca, Boka deve enfrentar, agora, seu primeiro grande obstáculo como deputado estadual.

A indicação de Boka ainda não é confirmada pelo partido, que deve anunciar os dois nomes somente na quinta-feira, 20.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Simon e o quero-quero

O silêncio do senador Pedro Simon sobre a corrupção no governo de Yeda Crusius foi criticado pelos deputados Marisa Formolo e Ronaldo Zülke, do PT. Na sessão plenária desta terça-feira (18), os parlamentares alertam os gaúchos para a falta de respeito e de coerência do senador caxiense, que manda o presidente da República calar a boca e ignora a maior crise política da história recente do Rio Grande do Sul.

Quero-quero
Para o deputado Zülke, o senador adotou a tática do quero-quero, que coloca o ovo num local e canta em outro para proteger os filhotes. “Ele faz isto para proteger os seus. Defende a ética e a moral em Brasília e não diz nada sobre o maior escândalo político da história recente do Rio Grande. Essa tática não cola. Além do mais, o senador Pedro Simon virou desrespeitoso. Não respeita sequer o presidente da República”, pontuou o parlamentar, que desafia Simon a se manifestar sobre a crise política por que passa o Estado.

“Estou surpresa com a conduta política e pessoal do senador”, frisou Marisa, ao observar que o discurso do seu conterrâneo é um em Brasília e outro do Rio Mampituba para baixo. Zülke também disse não guardar mais a mesma consideração pela trajetória de luta política do senador, que foi um dos líderes da democratização do país. O deputado lamenta o fato de Simon ter abandonado as questões importantes para o Rio Grande para se tornar um especialista em questões midiáticas.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A ação do MPF na íntegra

Todo mundo bufava que a ação pública, apesar de pública, não era franqueada ao público (arre!!!). Buenas, a pouco, algum maluquete vazou o conteúdo na íntegra, e este Mídia ao Avesso já chupou o material e disponibilizou pra vocês.

Não têm o que fazer? A programação da TV tá uma merda? Então, baixe e leia as 1.239 páginas que expõem as vísceras da corrupção no Estado.

Li a primeira das cinco partes, onde fica patente o esforço do presidente do Tribunal de Contas do Estado (!!!) em fazer politicagem, aliciando deputados pra participarem da CPI do Detran. Além de umas coisinhas indecentes pra quem ocupa cargos em que se exige uma certa liturgia. Ou as pressões para que se "fale com o Nelson" pra mídia bater menos...

Seguem dicas de algumas das páginas interessantes:


pags. 83 e 84 Conversa gravada entre Busatto e Feijó. Lendo o texto do MPF, fica claro que os peixes grandes devem "agradecer" a Busatto por terem sido pegos

pag. 182 João Luis Vargas: "um amigo meu se matou, um guri, um bobalhão.. com 21 anos"

pag. 194 verdadeira confissão da participação nos desvios: Zé Otávio e Maciel
"Tem que pegar um grupo aí que não esteja diretamente envolvido e ir lá falar com o Nelson (RBS)"

pag. 197 e 198: "baixinho, de cabeça redonda, enrolado com a mulher, vai ser titular da CPI e vai ser parceiro". Pra mim, isso é sobre um deputado que tá traindo a mulher, e que tá sendo pressionado pra ficar ao lado deles

pag. 200: JLV fez pressão no PDT e colocou na CPI Adroaldo Loureiro e Gerson Burmann

pag. 213-214: JLV faz pouco da AL e do deputado Marquinho (virou homem, mas pra ser cidadão ainda falta um pouco)

pag. 223: Maciel e JLV: "cortou o cabelo, emparelhou a barba; deixou de ser aquele nego bagaceiro..."

pag. 227: Vaz Netto: "vou fuder com o governo, esses filhas das putas"

pag. 228-229 : "Gremio queria comprar Rafael Sobis" (opa, isso até hoje eu não sabia. Roubar meu Estado até pode, mas levar um colorado pro Olímpico? Aí já é demais. CPI neles!!!


ah, os arquivos:


http://www.jornalagora.com.br/downloads/MPFxYeda001.pdf
http://www.jornalagora.com.br/downloads/MPFxYeda002.pdf
http://www.jornalagora.com.br/downloads/MPFxYeda003.pdf
http://www.jornalagora.com.br/downloads/MPFxYeda004.pdf
http://www.jornalagora.com.br/downloads/MPFxYeda005.pdf

terça-feira, 21 de julho de 2009

Coluna semanal no Agora - Rio Grande (RS)

  • A gripe A, suína, H1N1, independente do nome que receba, não para de causar preocupação. Na vizinha Argentina, os números já são alarmantes, a ponto de 85% a 90% dos casos de gripe serem pelo novo vírus. No Reino Unido, estima-se que, no auge da epidemia, até 100 mil pessoas por dia serão contaminadas. Em Caxias, aqui no Estado, um médico pneumologista me disse que as mortes já chegam a cinco (embora o número oficial é de apenas uma), e que as vítimas fatais eram saudáveis, sem complicações associadas.

  • Outro fato importante é que, segundo a OMS, a taxa de mortalidade do H1N1 é a mesma da gripe comum: 0,5%. Ou seja, a cada 200 contaminados, um deverá morrer. No entanto, o estrago na Argentina é várias vezes maior: a fatalidade chega a 4,48% dos infectados.

  • Levando em conta estes dados, criei dois cenários aqui mesmo, em nosso pequeno mundinho:
    Cenário 1 = 10% da população
    Nesse cenário, em Rio Grande, se apenas 10% da população (ou 19 mil pessoas) contrair a gripe, seriam 95 os mortos. Já pelo índice "argentino" de mortalidade, teríamos 851 pessoas morrendo pela doença.

    Cenário 2 = 25% da população

    A OMS já disse que, em uma previsão bastante realista, 30% da população mundial poderá contrair o vírus H1N1. Numa estimativa um pouco mais modesta, se 25% dos rio-grandinos fossem infectados (45,6 mil pessoas), a taxa de mortalidade "mundial" de 0,5% faria 228 vítimas fatais. Já a taxa "portenha" resultaria em 2.042 mortes!

  • Some-se a isso a recusa dos governos em oferecer o antiviral antes de confirmar a infecção, e o fato de que o remédio é eficiente nas primeiras 48 horas, e se chega à conclusão de que qualquer cenário que se reproduza por aqui é preocupante. A matemática costuma ser implacável.

  • Ao apontar, na semana passada, que Tarso e Luciana Genro estariam por trás dos ataques contra o seu governo, Yeda parece reconhecer o que as pesquisas já apontam: a reeleição é praticamente impossível. Assim, resta arrastar consigo o principal adversário (não necessariamente dela, mas de grupos de interesse maiores), criando um clima de confronto entre a situação coberta de escândalos X a oposição raivosa. Assim, limpa o terreno para uma "terceira via" mais pacífica em 2010. Exatamente como ocorreu em 2006.

Yeda, descontrolada


Yeda, até o fim

por Leandro Fortes, no blog Brasília, eu vi

"Quem estava na Bahia se lembra: nas eleições municipais de 1985, Antonio Carlos Magalhães, então todo-poderoso ministro das Comunicações do governo José Sarney, apareceu sorridente para votar no salão nobre do Clube Bahiano de Tênis, reduto da elite branca de Salvador. ACM vivia tempos de glória. Tinha virado a casaca e abandonado os militares, a quem servira como poucos na ditadura, para embarcar na canoa da Nova República de Tancredo Neves. Era uma tarde ensolarada de novembro, sol da Bahia, luz e calor. O coronel chegou sorridente, cercado de acólitos e puxa-sacos, como de costume, certo de estar lá, naquela hora, para viver mais um momento de glória. Bastou pisar nos salão do clube, no entanto, para ser escandalosamente vaiado. Ainda atordoado pelo vexame, ACM tentou usar da velha tático do nem-é-comigo para continuar sorrindo e cumprimentando providenciais correligionários apressadamente colocados em fila por assessores solícitos. Seria pouco para conter a besta-fera que sempre foi verdadeira alma do coronel.
A dois passos da urna, ACM foi abordado por um repórter com cara de menino, baixinho, calças exageradamente colocadas acima da cintura, um cabelo preto, liso e espetado, caído sobre a cabeça em forma de cuia. Chamava-se Antônio Fraga, tinha 19 anos e uma disposição dos diabos. Repórter-estagiário da TV Itapoan (à época, retransmissora do SBT), Fraga cursava comigo o primeiro ano da faculdade de jornalismo da Universidade Federal da Bahia. Era um jornalista precoce e hiperativo. Com a audácia tão típica da juventude, ele furou o séquito de bajuladores carlistas e perguntou, à queima-roupa, na cara de ACM, o que ele achava de estar sendo vaiado.
Com o rosto desfigurado de ódio, Antonio Carlos, primeiro, deu um soco no microfone que Fraga segurava com a mão direita, de maneira a atingi-lo na boca. Em seguida, chamou o jornalista de “filho da puta” e passou a ameaçá-lo de outras agressões, enquanto dois seguranças tentavam derrubá-lo desferindo chutes no calcanhar. Na aurora da redemocratização do Brasil, o garoto Fraga conseguiu mostrar para o país quem era, de fato, aquela triste e grotesca figura política que ainda iria reinar soberana nas colunas políticas da imprensa brasileira, por muitos anos, impune e cheia de prestígio.
Essa história antiga me veio à cabeça assim que vi, na internet, a máscara de rancor estampada no rosto da governadora Yeda Crusius, do Rio Grande do Sul, na semana passada, a chamar, histérica, os professores gaúchos de “torturadores de crianças”. Atrás das grades do portão da casa onde mora, casa, aliás, suspeita de ter sido adquirida com dinheiro de caixa dois de campanha, a tucana tornou-se um emblema da loucura que quando em vez acomete os bichos acuados, na iminência do extermínio, certos de que o próximo passo, de ré, será o vazio terrível de todo abismo. Diante do mundo, reproduzidos on line, os gestos alucinados de Yeda Crusius se tornaram o emblema de uma administração falida, desmoralizada e corrompida até a medula. O instantâneo da débâcle de uma administração que, ironicamente, arrogou-se de ser “um jeito novo de governar”.
Ao tentar incutir a pecha de “torturadores” em professores que assustaram seus netos com uma manifestação contra a precariedade da rede pública de ensino no estado, a governadora ultrapassou os limites da sanidade política minimamente exigida para o cargo que ocupa. Estivesse em um barco, seria alvo de um justificado motim. Ainda assim, achou-se no direito de usar a Brigada Militar contra os manifestantes. Incapaz de controlar a avalanche de denúncias que se amontoam sobre ela desde que a Polícia Federal descobriu, na Operação Rodin, a quadrilha de trambiqueiros que opera nos bastidores do Palácio do Piratini, Yeda Crusius decidiu esconder-se por trás de um discurso autista e surreal. Fala de uma gestão que não existe e enaltece a si mesmo como inspiração de governança.
Trata-se, portanto, de um caso de intervenção humanitária. Seria, portanto, a chance de o senador Pedro Simon, do PMDB, que é franciscano, esquecer-se das circunstâncias políticas que o mantêm convenientemente calado e tomar uma atitude, digamos, cristã. Se não pela decência da política gaúcha, quem sabe em nome dos netos de Yeda, pobres crianças assustadas com o barulho da turba de professores de escolas – de lata, lotadas, imundas e apertadas – nas quais eles jamais irão estudar.
No fim das contas, não há nada mais cristão do que salvar uma mulher do apedrejamento, ainda que seja ela a jogar as pedras para o ar.

Em tempo: graças ao link do youtube que o leitor DKRC gentilmente disponibilizou na caixa de comentários, posso corrigir um erro de informação. O ano era 1986 e a eleição era para governador. O candidato de ACM, Josaphat Marinho, foi derrotado por Waldir Pires. Antonio Fraga era repórter da TV Itapoan e, eu, da Tribuna da Bahia. Bons tempos."
O vídeo da agressão pode ser visto aqui.

sábado, 18 de julho de 2009

Sobre coronéis, governadores e formação de quadrilha



Não deixe de ler (pescado do Diário Gauche):

Comandante da Brigada quer definir o que é “formação de quadrilha”

O comandante-geral da Brigada Militar, coronel João Carlos Trindade, deu entrevista ontem a uma rádio do interior e aventurou-se a falar de política, tema estranho às atribuições de um comandante de polícia militar. Além da política, o brigadiano quis conceituar juridicamente o protesto de rua havido quarta-feira defronte (e não dentro) à casa mal havida da governadora Yeda. Para o coronel Trindade, houve a tipificação de “formação de quadrilha – quando as pessoas se reúnem para cometer delitos”.

Muito bem. Estamos diante de um excelente mote. Vamos discutir quem são de fato os que formam quadrilha no Rio Grande do Sul. Quem realmente se reúne para cometer delitos em série?

Vamos ao debate. (continua)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Carta aberta aos educadores gaúchos


Dia após dia, uma enxurrada de denúncias envolvendo a governadora Yeda aumenta a desconfiança sobre as relações constituídas dentro do palácio Piratini. É crescente o descontentamento do povo gaúcho com as medidas de redução do estado e dos serviços públicos.

Os acordos firmados com o Banco Mundial para o refinanciamento de parte da dívida do Estado com a União hipotecaram os planos de carreira, a garantia de uma aposentadoria digna e a perspectiva de cumprimento da Lei do Piso, questionada pela governadora no STF.

Entretanto, seria errado pensarmos que a crise paralisou o governo. É visível o processo de desconstituição do ensino público e a degradação da qualidade das escolas.

A "saída" que o governo do estado apresenta passa pelas chamadas “parcerias” com o setor privado. O que o jornal Zero Hora, do dia 7 de julho, noticiou já vínhamos alertando há muito tempo. A matéria publicada começa dizendo “Imagine uma escola pública onde os alunos possam visitar uma exposição real sobre corpo humano para complementar as aulas de biologia. Onde os professores mais dedicados recebem um prêmio anual equivalente a R$ 900 para comprar livros, assistir a peças de teatro ou repor um móvel da casa.”

Esse exercício de “imaginação” do jornal se concretiza no acordo firmado entre a Secretaria de Educação e o Unibanco, uma das instituições financeiras que se “lambuza” com as altas taxas de juros no Brasil.

Dessa forma, ao invés do estado garantir um ensino de qualidade para todos, transforma os diretores em vendedores de suas próprias escolas, em troca da entrega da administração pedagógica para uma instituição financeira.

O que é um direito passa a ser resultado de “caridade” de empresários e a receita apontada pelo governo estadual para acabar com os índices abaixo da média obtida pelos alunos nas avaliações externas remete à visão da educação como “mercadoria”. O governo não investe, na educação, os valores previstos em Lei e aposta nas instituições privadas para "ajudar" apenas algumas escolas na solução de problemas que o próprio governo não resolve.

Além disso, experiências recentes em escolas de Porto Alegre demonstram que esse programa, baseado na “premiação” e no trabalho voluntário – instituição estranha ao serviço público – deflagra uma guerra entre os professores na busca pelos “prêmios”.

Não se trata de coincidência. Esse programa está sintonizado com a política de concorrência e de premiação anunciada pela Secretária de Educação no projeto de confisco do plano de carreira.

Quem defende a escola pública, os direitos e as conquistas duramente alcançados só tem uma saída: defender os planos de carreira, lutar pela implementação da Lei do Piso e expurgar o governo Yeda e sua política. Para isso, convido todos os colegas a se somarem ao calendário de atividades definido pelo nosso sindicato, elegendo representantes nas escolas e abrindo esse debate para toda a comunidade escolar.

Saudações Sindicais

*Luiz Henrique Becker

Representante 1/1000

14º Núcleo CPERS Sindicato

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Choque de realidade


Segundo entrevista de Yeda à rádio Gaúcha, seu neto de 8 anos "se preparou para as provas de hoje" e - após ver a manifestação do povo contra as denúncias de corrupção não apuradas no governo gaúcho - saiu chorando para a aula (que, muito provavelmente, não é assistida em um contêiner de lata). À rádio, a zelosa avó lembrava que crianças expostas a brutalidades e mazelas não conseguem ter um rendimento satisfatório na escola.

Da mesma forma, todos os dias, milhares de crianças da mesma idade saem de casa para o colégio após assistirem brigas dos pais, causadas pela desagregação familiar oriunda das condições miseráveis em que vivem; saem com fome, pois há pouco o que comer; correm riscos em ônibus escolares depreciados; enfrentam o frio intenso nas escolas de lata (ou o calor tórrido, quando chega o verão). Ou, como no exemplo da escola Loréa Pinto, em Rio Grande, têm que se cuidar para não cairem em buracos de mais de um metro no piso.

A realidade às vezes é dura!
.
FOTO: Roberto Vinicius/Ag. Freelancer

Botox virtual?

FOTO: Elias Eberhardt


FOTO: Jefferson Bernardi/Piratini

Tá certo que o governo Yeda tente maquiar alguns números pra justificar o tal do déficit zero (atingido mediante um empréstimo bilionário que vai cair no colo dos próximos governantes - e para os nossos filhos pagarem - e através de desinvestimento nas principais áreas sociais, mas isso é bobagem). Tá certo também que a desgovernadora tente sair "bem na foto", principalmente em um evento importante como o do anúncio dos novos investimentos da GM no país.

Mas não precisavam exagerar no Photoshop, né?

Ontem, as redações receberam e-mails com releases do anúncio, bem como fotos de membros dos governos querendo faturar em cima do evento. Mas uma das fotos, enviada pela assessoria do Piratini (e de autoria do fotógrafo Jefferson Bernardes), demorou um pouquinho mais a ser liberada. Quando chegou, veio com o seguinte aviso: "ATENÇÃO- FOTO ESPECIAL - Nova foto com a governadora".
Parece, no entanto, que valeu à pena a demora. A dama aparece na foto contente, bonitona, rejuvenescida e com uma pele de mocinha! Mas, comparando a foto feita pelo retratista oficial com a tirada no mesmo momento, pelo fotógrafo Elias Eberhardt (da assessoria da GM), a diferença é notável. Pra quem conhece o Photoshop e seus plug-ins (como o NeatImage ou o Noise Ninja), é evidente o retoque!

Quem sabe esse desejo de "remoçar" seja uma nostalgia dos tempos em que Yeda tinha uma vida mais fácil, na Câmara federal, embolsando os gordos salários e todas as verbas penduradas sem ser cobrada pelos eleitores. Ou, em um tempo ainda mais remoto, na doce e glamourosa época em que só precisava dar furados palpites sobre economia na telinha do grupo que a elegeria mais tarde.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Coluna semanal no Agora - Rio Grande (RS)

  • A crise no Senado parece não ter fim, depois que os senadores "descobriram" possíveis ilícitos do presidente Sarney. Embora o alvo não seja efetivamente o oligarca maranhense, a vigilante oposição segue fustigando o velho coronel. Hoje, vários ex-colegas pediram sua cabeça grisalha numa bandeja, ao bradarem por sua renúncia.

  • Já aqui nos pampas, o novo recuo da viúva do ex-assessor suicidado (Magda Koenigkan adiou depoimento que daria na Assembleia), o continuado silêncio do MPF e a falta de uma cobrança mais forte em cima dos deputados que fecham os olhos para as denúncias (sem assinar a criação da CPI da Corrupção) deram um novo alento à senhora que governa o RS. Ao menos por enquanto, as pizzas preparadas no Piratini - e servidas no restaurante da Assembleia - seguem alimentando muita gente.

  • Yeda já achou o "culpado" pela desgraça em que se meteu o Rio Grande do Sul nos últimos 20 meses: o ministro da Justiça Tarso Genro (curiosamente, líder em pesquisas de opinião para o governo estadual em 2010)! O petista Tarso é culpado pela Polícia Federal ter descoberto que pessoas ligadas ao Piratini se locupletavam de um esquema para desviar milhões do Detran. É do ministro também a culpa por descobrirem que a tucanada de Canoas (ligada ao povo do Piratini através do milionário secretário Chico Fraga) desviava dinheiro da merenda escolar. Deve ser por obra de Tarso também que políticos como José Otávio Germano foram flagrados ao telefone dizendo para um dos acusados na Operação Rodin que eram "sete um" e não "sete zero", e que poderiam ser deixados com uma secretária. Parece que, ao menos nesse meio, investigar crimes praticados por supostos corruptos é considerado desvio de conduta.

  • Apesar da histórica divergência entre pai e filha, sobrou ainda para Luciana Genro, deputada federal pelo PSOL, também nomeada por Yeda como partícipe de uma "conspiração" que paralisa o governo gaúcho. Pela lógica, fariam parte também deste grupo "suprapartidário" nomes como Adão Paiani (ex-ouvidor da Segurança, recém-exonerado do governo yedista), Paulo Feijó (vice-governador, filiado ao DEM) e Lair Ferst (até há pouco "afável" e "sempre presente" militante do PSDB gaúcho), entre outros. A pergunta que não cala, então, é: como nossa governadora conseguiu a proeza política de unir tanta gente tão diferente contra si?

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O recuo de Magda?

Aguardava-se pra hoje na Assembleia o depoimento de Magda Koenigkan, viúva do ex-assessor de Yeda, Marcelo Cavalcante, que sabia demais (e acabou no fundo do lago Paranoá). Mas, segundo informa ZH, mesmo afirmando ter farto material comprobatório sobre o escândalo que paralisa o governo gaúcho, Magda teria recuado ontem, dizendo que "manterá o silêncio em respeito ao trabalho do MPF". A ida ao parlamento guasca não deve passar, então, de mera visita.
Quem sabe os flashs e toda a exposição na mídia a tenham atraído. Ou a óbvia baixa temperatura das águas do Guaíba neste nosso inverno a tenham feito pensar duas vezes.

Enquanto isso, um pouco de nostalgia, com a balada de Bonnie & Clyde, por Georgie Fame e a banda Blue Flames (1968). Ao menos os bandidos de antigamente rendiam obras-primas da sétima arte. Hoje, dariam no máximo um filme B.





terça-feira, 7 de julho de 2009

No dos outros é refresco!


Simon critica apoio de Lula a Sarney, mas cala em relação à Yeda



Em uma carta enviada hoje pelo à executiva do partido, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) defendeu a candidatura própria do partido na eleição presidencial de 2010. A carta-manifesto foi endereçada à deputada federal Ísis de Araújo, presidenta em exercício do PMDB. No texto, Simon criticou o apoio que o presidente Lula teria dado ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), alvo de várias denúncias nos últimos dias. No entanto, não reservou nenhuma palavra sobre o governo Yeda e sobre apoio de deputados peemedebistas à governadora, que também enfrenta diversas denúncias, além de um pedido de CPI e outro de impeachment, na Assembleia gaúcha.


Na carta, Simon lembra a decisão do encontro estadual do partido em Porto Alegre, a expressão do partido no país, o mais votado nas últimas eleições municipais, e destaca o apoio das bases partidárias à tese da candidatura peemedebista em 2010. Segundo ele, no encontro na capital gaúcha, por unanimidade, o partido "aprovou moção, por mim apresentada, para que o PMDB tenha uma candidatura própria nas eleições presidenciais de Outubro de 2010".


Lembra ainda que a decisão partiu do cumprimento do Estatuto do partido, a partir de ofício assinado pelo deputado federal Eliseu Padilha, "secretário geral do Partido e presidente da Fundação Ulysses Guimarães, determinando a realização de Congressos estaduais com duas preocupações centrais: a definição de uma candidatura presidencial do PMDB em 2010 e a discussão de propostas peemedebistas no âmbito dos governo estaduais e federal."


Simon lamenta que, em função das denúncias no Senado, a determinação do partido perdeu força em nível nacional, "soterrada pelo escândalo de malfeitos e mau uso do dinheiro público na esfera do Senado Federal, presidida pelo PMDB". Na carta, o senador destaca ainda "um encontro entre o senador José Sarney, figura central da polêmica que hoje convulsiona esta Casa, e o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Ficou insinuado que a força do Presidente Lula seria usada para salvar o cargo do Presidente Sarney. Teria se aventado, ali, o desdobramento político de uma eventual saída de José Sarney da presidência da Casa, o que implicaria na perda do apoio do PMDB ao PT nas eleições de 2010."


O Agora fez contato, por e-mail e diretamente por telefone, com a assessoria parlamentar para conhecer também a posição do senador acerca da crise no governo gaúcho, mas não recebeu resposta até o fechamento da edição. Entre outras perguntas, a reportagem questionava "como o senador vê a possibilidade de CPI para investigar a fundo as denúncias [contra o governo Yeda], uma vez que as mesmas recaem, inclusive, sobre membros do partido (deputados estaduais Alexandre Postal e Luiz Fernando Záchia, por exemplo)?" A assessoria informou apenas que o senador estava em recuperação de um recente problema de saúde.



por Germano S. Leite/Jornal Agora