sábado, 16 de junho de 2012

A repórter loira, o suposto negro estuprador e uma sequência nojenta


Jornalista precisa de diploma pra fazer isso? Depois reclamam quando se fala em regulação da mídia!

"Serra mandou algemar jornalista num poste"

Entrevista de Ciro Gomes ao programa de Heródoto Barbeiro, Brasil em Discussão, no R7.


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Desrespeito e acomodação

Enquanto esperam na fila, clientes pegam no sono

Por não ter outra alternativa, fui hoje ao Banrisul para atendimento direto nos caixas. Entrei às 13h22min. Após esperar em pé e ver gente dormindo nas cadeiras (vide foto), fui atendido às 14h27min. A Lei Municipal nº 5.611, em vigor desde 05 de fevereiro de 2002, e alterada pela Lei nº 6.323/2006, diz que os usuários não podem permanecer mais do que 15 minutos na fila após o recebimento da senha. Não podem??!! Então como eu fiquei hoje por 1h05min???

Bom, após atendido, pedi gentilmente ao caixa que me carimbasse, no verso da minha senha, o horário de saída, e este negou-se, sugerindo que eu procurasse um supervisor. Lá fui, tendo que aguardar mais alguns minutos para ser atendido. Pedi então à supervisora (reservarei o nome), que também negou-se a carimbar (será que a gerência determina expressamente aos servidores não fornecerem tal registro? E, se determina, por que a gerência faria isso?). Mas a supervisora pediu-me "compreensão", já que era um "dia atípico". E depois explicou-me o que seria, no seu entendimento, um dia atípico: "do dia 1º ao dia 10 nós temos problemas de atendimento, porque é quando todo mundo tem que fazer tudo no Banrisul... como qualquer outro banco, pelo que eu sei, nesses dias estão assim".

Por fim, a supervisora não carimbou, mas apenas escreveu, a mão, no verso da senha, o horário de saída (14h34min), seu nome e sua matrícula. E eu perdi, apenas para uma operação bancária cotidiana, 1 hora e 12 minutos!

Dia atípico!? Dez dias por mês, todos os meses!? E todos os bancos estão assim!? Juro que não entendi onde está a atipicidade disso! Mas entendo o que diz a Lei, mal fiscalizada, e muito por nossa culpa. Portanto, para me isentar um pouco desta culpa, comuniquei por telefone o fato ao secretário municipal da Fazenda, pedindo fiscalização, e em seguida perdi mais alguns minutos para protocolar uma reclamação e pedido de providência, nos termos daquela Lei em vigor, junto à Secretaria da Fazenda.

Lá, infelizmente, obtive a informação que as atendentes não se lembravam de outra reclamação quanto a este problema. Será que é porque os bancos descumprem outro mandamento da Lei, que diz que são as agências “obrigadas a afixar a presente lei nas suas áreas internas e externas , em local visível e de fácil leitura”?

Ou pior, será que é por pura acomodação nossa enquanto cidadãos?


Clientes aguardam mais de uma hora, muitos em pé


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Direitos humanos, na visão ianque

FOTO: Nick Ut

Não foi Saddam (enforcado por crimes de guerra) quem fez isso. Não foi também Kadhaffi (assassinado pelos "rebeldes" líbios por ser criminoso de guerra). Também não foi Ahmadinejad. Nem tampouco Bashar al Assad (ditador sírio a quem Hillary Clinton e a ONU consideram um genocida). Também não consta que quem perpetrou este ataque (com napalm, que queimava as vítimas - homens, mulheres e crianças) tenha sido o supostamente assassinado Bin Laden.

Não sei quem foi o genocida que mandou atacar estas pessoas. E também não me consta que ele tenha sido preso, condenado (por um tribunal de exceção) e executado, como se faz por aí com outros genocidas do mesmo gênero.

Gilmar não é o STF




O ministro Gilmar Mendes informou  ( …)  que vai entrar com uma ação na Procuradoria Geral da República, solicitando o substrato das empresas estatais que usam do uso do dinheiro público para o financiamento de blogs que atacam as instituições.

— É inadmissível que esses blogueiros sujos recebam dinheiro público para atacar as instituições e seus representantes. Num caso específico de um desses, eu já ponderei ao ministro da Fazenda que a Caixa Econômica Federal, que subsidia o blog, não pode patrocinar ataques às instituições.

Em resposta, o "blogueiro sujo" Paulo Henrique Amorim (do "sujíssimo" Conversa Afiada), respondeu:


"Se for quem este blogueiro sujo está pensando, ele informou ao Conversa Afiada:


Vai ao Supremo contra Gilmar Dantas (*) por:


- abuso de autoridade;


- obstrução de atividade comercial legal;


- tentativa de censura;


- por delírio psicológico incontrolável, com manifestações patológicas óbvias, incompatíveis com a função que exerce.


Se for quem este blogueiro sujo está pensando, ele informou ao Conversa Afiada que vai entrar com um pedido de impeachment de Gilmar Dantas no Senado (*).


Se for este bogueiro sujo mesmo, ele sugere ao Gilmar Dantas: renuncie, dispa-se da toga do “foro privilegiado” e venha para a arena da democracia.


“Vamos para o mano-a-mano”, aqui na planície, debater ideias e confrontar fatos – disse o blogueiro sujo, que falou com exclusividade a este Conversa Afiada.


Se for quem este blogueiro sujo pensa, diz ele que falou assim: Ministro, saia detrás da Veja, do PiG (**), dessas colunas de mexerico.


E sugeriu que Gilmar respondesse à pergunta: o que significa ”o Gilmar mandou subir” ?


Se for quem este blogueiro sujo está pensando, ele pergunta, também: por que o Gilmar Dantas (*) não vai à PGR mover ação contra o Mauro Santayana, outro blogueiro sujo há muitos anos, que pediu ao Supremo para mandar o Gilmar embora ?


Num ponto o blogueiro sujo concorda com esse, em quem ele está pensando: não recomenda nada o Ministro ter dado dois HCs Canguru logo a quem, ao Daniel Dantas !


Lá isso é verdade.


Não orna.



Paulo Henrique Amorim, blogueiro sujo, com fontes entre os blogueiros sujos."

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Contradição?

Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr



Em diálogo de 29/04/2009, gravado com autorização judicial, Demóstenes fala com Cachoeira e, pela conversa, demonstra saber claramente das atividades ilícitas mantidas pelo contraventor.

Eis o diálogo:

Demóstenes: "Eu peguei o texto ontem da lei para analisar. É aquela que transforma contravenção em crime. Que importância tem a aprovação disso?"

Cachoeira: "É bom demais, mas aí também regulamenta as estaduais."

Demóstenes: "Regulamenta, não. Vou mandar o texto procê. O que tá aprovado lá é o seguinte: "transforma em crime qualquer jogo que não tenha autorização". Então, inclusive te pega, né? Então, vou mandar o texto pra você. Se você quiser votar, tudo bem, eu vou atrás. Agora a única coisa que tem é criminalização, transforma de contravenção em crime, não regulariza nada."

Foquemos no momento em que Demóstenes diz: "Transforma em crime qualquer jogo que não tenha autorização. Então, inclusive te pega, né?". Ou seja, pela conversa, demonstra saber que Cachoeira comanda uma rede de jogatina ilícita, e passaria de contraventor a criminoso com a aprovação daquele projeto de lei.

MAS, e isto me parece extremamente importante (e parece não ter sido notado pelos membros do Conselho de Ética ou pela imprensa), Demóstenes caiu em contradição nesta terça, no Conselho. Ao ser perguntado pelo relator da representação, senador Humberto Costa, desde quando teria ficado sabendo que seu amigo Cachoeira era um contraventor, respondeu: "no dia em que ele foi preso, 29 de fevereiro" [de 2012].

É contradição ou impressão minha?

terça-feira, 29 de maio de 2012

Sepúlveda, sobre Gilmar

Respeito mútuo

Sepúlveda Pertence, ex-presidente do STF (Foto STF/divulgação)

Comentários do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Sepúlveda Pertence, que teve o seu nome citado em matéria publicada pela revista Veja que circula a partir de hoje (26). Na matéria, a revista revela  suposto encontro entre o ex-presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva e o ministro do STF, Gilmar Mendes no escritório de advocacia do ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, a respeito do processo do “mensalão”:

Seguem os comentários do ministro Sepúlveda Pertence:

1 – Apesar das velhas relações pessoais de amizade, o ex-presidente Lula jamais falou comigo sobre processo judicial algum: exceto, muito antes de ser presidente da República, quando se tratava dos processos contra o Lula, líder sindical, naqueles processos a que respondeu na Justiça Militar, em que tive a honra de participar de sua defesa.
2- Particularmente sobre matéria da revista Veja, o ex-presidente da República jamais me falou sobre o chamado processo do “mensalão”: ele sabe que eu não me prestaria a fazer pedido à ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha, nem ela aceitaria qualquer conversa minha a propósito. Por esse respeito mútuo, é que somos tão amigos.
3- Lamento que um ministro do Supremo [Gilmar Mendes] se tenha posto, supostamente, a dar declaração sobre conversas, reais ou não, que tenha tido com um ex-presidente da República no escritório de um político e advogado.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Gilmar, o audacioso

Reproduzo aqui postagem do jornalista (ou melhor, "blogueiro sujo", como ele mesmo ironiza) Paulo Henrique Amorim, em seu Conversa Afiada.

...

Tirésias, o Profeta, não foi ao Encontro de Blogueiros que adotou o lema “Nada além da Constituição”.
O computador do Profeta travou quando lhe caiu uma bolinha de papel em cima.
Do computador.

Mas, ligou com uma voz assim parecida com a do Nelson Johnbim ao conversar com colonista de hábitos do Globo – clique aqui para ler “Gilmar tem que processar o Lula”.

O Profeta começou assim:
- O Gilmar é o nosso Danton.
- Dalton Trevisan, profeta ? A ligação está péssima.
- Danton, meu filho. Danton da Revolução Francesa.
- Mas, sábio mestre, o Gilmar detesta a França. A paixão dele é a Alemanha.
- Dele e do Demóstenes.
- E do Cachoeira, Mestre.

- Deixa pra lá. O que eu quero dizer é que o Gilmar resolveu recorrer à máxima audâcia. Como  o Danton, que bradava: audácia, audácia, mais audácia, sempre audácia !
- Tirésias, por favor, seja mais claro.
- O Gilmar sabe que acharam ele na CPI. Tá lá dentro. A relação dele com o Demóstenes vai muito além do grampo sem áudio. (Clique aqui para ler “Gilmar não explica Demóstenes: ‘o Gilmar mandou buscar’ ” e aqui para ler “Gilmar intima Demóstenes a jantar”.)
- Tudo bem, mas por que chutar o balde e dizer aquilo à Veja (clique aqui para ler “Gilmar tem que processar Lula”.)
- Pra melar a CPI.
- Como ele conseguiria isso ?
- Ele vai poder dizer que tudo o que aparecer contra ele é uma retaliação por não ter lutado para adiar o mensalão. E tudo mais o que vier lá de dentro não presta !
- A melhor defesa é o ataque.
- É uma vacina. Ele tenta se vacinar contra o que estiver por vir.

- Caramba, mestre. Va ser audacioso assim em Anápolis !
- Ou em Diamantino.
- É, pode ser.

- Com essa arapuca que ele armou ele atinge os seguintes objetivos: força o Supremo a votar logo o mensalão.
- Não sei, Profeta. O Supremo tirou a faca do pescoço.
- Bom, o nosso Máximo Audacioso tenta engrossar o caldo para condenar o Dirceu … No PiG, nos leitores do PiG e até o Supremo.
- Mas ainda precisa engrossar esse caldo ?
- Meu filho, agora ele vai poder dizer: o Dirceu é tão, mas tão criminoso que o Lula ousou me chantagear!
- E alguém vai acreditar nisso ?
- Isso já não é problema de um audacioso. O audacioso ousa. Se colar, colou.

- O objetivo dele mesmo, na minha modestíssima opinião, é se vacinar contra o  que a CPI revelar a respeito dele.
- Sim, claro, antes de tudo ele é um político. A Suprema Corte é uma casa política, mas ele é o mais político de todos ali.
- Político conservador.
- Sempre! À direita do PFL !

- Calma , Mestre.
- Estou calmíssimo. Ele jogou politicamente. Pra melar a CPI, tirar a Veja do foco, condenar o Dirceu e se fingir de vítima de suspeitas infundadas.
- É, mas pode ser o esperto que tropeça nas próprias pernas …
- Tá ficando sabido, garoto !

- Você sabe o que aconteceu ao Danton depois de pronunciar aquela frase?
- Não, caro mestre.
- Morreu na guilhotina.

Pano rapido.


Paulo Henrique Amorim

Dallari cantou a pedra?


Degradação do Judiciário

por DALMO DE ABREU DALLARI * (artigo publicado em 08.05.2002, na Folha de S. Paulo)



Nenhum Estado moderno pode ser considerado democrático e civilizado se não tiver um Poder Judiciário independente e imparcial, que tome por parâmetro máximo a Constituição e que tenha condições efetivas para impedir arbitrariedades e corrupção, assegurando, desse modo, os direitos consagrados nos dispositivos constitucionais.
Sem o respeito aos direitos e aos órgãos e instituições encarregados de protegê-los, o que resta é a lei do mais forte, do mais atrevido, do mais astucioso, do mais oportunista, do mais demagogo, do mais distanciado da ética.
Essas considerações, que apenas reproduzem e sintetizam o que tem sido afirmado e reafirmado por todos os teóricos do Estado democrático de Direito, são necessárias e oportunas em face da notícia de que o presidente da República, com afoiteza e imprudência muito estranhas, encaminhou ao Senado uma indicação para membro do Supremo Tribunal Federal, que pode ser considerada verdadeira declaração de guerra do Poder Executivo federal ao Poder Judiciário, ao Ministério Público, à Ordem dos Advogados do Brasil e a toda a comunidade jurídica.
Se essa indicação vier a ser aprovada pelo Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional. Por isso é necessário chamar a atenção para alguns fatos graves, a fim de que o povo e a imprensa fiquem vigilantes e exijam das autoridades o cumprimento rigoroso e honesto de suas atribuições constitucionais, com a firmeza e transparência indispensáveis num sistema democrático.
Segundo vem sendo divulgado por vários órgãos da imprensa, estaria sendo montada uma grande operação para anular o Supremo Tribunal Federal, tornando-o completamente submisso ao atual chefe do Executivo, mesmo depois do término de seu mandato. Um sinal dessa investida seria a indicação, agora concretizada, do atual advogado-geral da União, Gilmar Mendes, alto funcionário subordinado ao presidente da República, para a próxima vaga na Suprema Corte. Além da estranha afoiteza do presidente — pois a indicação foi noticiada antes que se formalizasse a abertura da vaga –, o nome indicado está longe de preencher os requisitos necessários para que alguém seja membro da mais alta corte do país.
É oportuno lembrar que o STF dá a última palavra sobre a constitucionalidade das leis e dos atos das autoridades públicas e terá papel fundamental na promoção da responsabilidade do presidente da República pela prática de ilegalidades e corrupção.
É importante assinalar que aquele alto funcionário do Executivo especializou-se em “inventar” soluções jurídicas no interesse do governo. Ele foi assessor muito próximo do ex-presidente Collor, que nunca se notabilizou pelo respeito ao direito. Já no governo Fernando Henrique, o mesmo dr. Gilmar Mendes, que pertence ao Ministério Público da União, aparece assessorando o ministro da Justiça Nelson Jobim, na tentativa de anular a demarcação de áreas indígenas.
Alegando inconstitucionalidade, duas vezes negada pelo STF, “inventaram” uma tese jurídica, que serviu de base para um decreto do presidente Fernando Henrique revogando o decreto em que se baseavam as demarcações. Mais recentemente, o advogado-geral da União, derrotado no Judiciário em outro caso, recomendou aos órgãos da administração que não cumprissem decisões judiciais.
Medidas desse tipo, propostas e adotadas por sugestão do advogado-geral da União, muitas vezes eram claramente inconstitucionais e deram fundamento para a concessão de liminares e decisões de juízes e tribunais, contra atos de autoridades federais.
Indignado com essas derrotas judiciais, o dr. Gilmar Mendes fez inúmeros pronunciamentos pela imprensa, agredindo grosseiramente juízes e tribunais, o que culminou com sua afirmação textual de que o sistema judiciário brasileiro é um “manicômio judiciário”.
Obviamente isso ofendeu gravemente a todos os juízes brasileiros ciosos de sua dignidade, o que ficou claramente expresso em artigo publicado no “Informe”, veículo de divulgação do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (edição 107, dezembro de 2001). Num texto sereno e objetivo, significativamente intitulado “Manicômio Judiciário” e assinado pelo presidente daquele tribunal, observa-se que “não são decisões injustas que causam a irritação, a iracúndia, a irritabilidade do advogado-geral da União, mas as decisões contrárias às medidas do Poder Executivo”.
E não faltaram injúrias aos advogados, pois, na opinião do dr. Gilmar Mendes, toda liminar concedida contra ato do governo federal é produto de conluio corrupto entre advogados e juízes, sócios na “indústria de liminares”.
A par desse desrespeito pelas instituições jurídicas, existe mais um problema ético. Revelou a revista “Época” (22/4/ 02, pág. 40) que a chefia da Advocacia Geral da União, isso é, o dr. Gilmar Mendes, pagou R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público — do qual o mesmo dr. Gilmar Mendes é um dos proprietários — para que seus subordinados lá fizessem cursos. Isso é contrário à ética e à probidade administrativa, estando muito longe de se enquadrar na “reputação ilibada”, exigida pelo artigo 101 da Constituição, para que alguém integre o Supremo.
A comunidade jurídica sabe quem é o indicado e não pode assistir calada e submissa à consumação dessa escolha notoriamente inadequada, contribuindo, com sua omissão, para que a arguição pública do candidato pelo Senado, prevista no artigo 52 da Constituição, seja apenas uma simulação ou “ação entre amigos”. É assim que se degradam as instituições e se corrompem os fundamentos da ordem constitucional democrática.


* Dalmo de Abreu Dallari, 70, advogado, é professor da Faculdade de Direito da USP.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Deus e "os escolhidos"

Rabino Dov Lior


AVISO: postagem sobre extremismo religioso. Se não interessa, simplesmente ignore.

Dia desses li (e comentei no Facebook) declaração de um pré-candidato à presidência dos EUA (Mitt Romney), que alegou que Deus (Ele, o próprio) teria escolhido aquele país pra “comandar o mundo”. E por isso (em nome d'Ele), iriam à guerra sempre.

Agora, li uma outra grande asneira do mesmo gênero (nem dá pra dizer que é pior, embora até pareça, já que ambas usam como fundamentos a mesma lenga-lenga de sempre: “somos os escolhidos”). Segundo este texto, um rabino israelense chamado Dov Lior prega um “édito talmúdico” (uma “lei” religiosa antiga) que libera o assassinato de não-judeus.

O texto diz que, na cabeça doentia desse rabino, até as crianças não judias devem ser mortas, “porque não há inocentes na guerra”. A ideologia dele prega ainda que “ainda que sejam pacificados e ‘passem a respeitar a lei’, os não judeus devem ser escravizados para ‘carregar água e cortar lenha’, a serviço dos senhores da raça superior”.

Estranho, parece que já se ouviu, na boca de outros maníacos do passado, esse papinho de "raça superior"!

Pois bem, como não saio acreditando em tudo que leio, fui procurar mais a respeito do tal Rabbi Dov Lior. Cheguei, então, a uma reportagem recente do Ha'aretz (jornal israelense), a qual, infelizmente, parece comprovar a informação. E mais: diz que (assim como Mitt Romney nos EUA) o infeliz rabino não é um simples maluquete radical, mas um líder influente e respeitado.

A coisa chega ao ponto de os principais partidos da coalizão do atual governo Netanyahu quererem propor uma chamada “Lei Dov Lior”, que garantiria a loucos como ele saírem pregando assassinatos e racismo por aí, sem serem “incomodados” pela lei. Segundo eles, a Torah (bíblia do judaísmo) está acima de qualquer lei humana.

Resumindo: se Deus disse que os judeus são a raça superior, que prometeu Jerusalém a eles, e que o resto (os não-judeus, inclusive eu e talvez você) tem estatuto equivalente a “bestas de carga”, então tá falado! É isso mesmo?

Eita mundinho cada vez mais perigoso, esse nosso!


PS 1: nada tenho contra judeus em geral, mas sim contra este tipo de interpretação extremista vinda de grupos que parecem ganhar força ultimamente.

PS 2: gostaria que as “patrulhas sionistas” que enchem meu saco por e-mail dissessem apenas se discordam do rabino em questão, ao invés de se limitarem a fazer ameaças veladas.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Londres, 2011: Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite

Interessante análise sobre os tumultos em Londres. O texto é da canadense Naomi Klein, escritora e autora do documentário A Doutrina do Choque.

Londres, 2011: Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite

16/8/2011, Naomi Klein, The Nation, EUA
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Leio comparações entre os tumultos em Londres e em outras cidades europeias – vitrines quebradas em Atenas, carros incendiados em Paris. E há paralelos, sem dúvida: uma fagulha lançada pela violência policial, um geração que se sente esquecida. Esses eventos foram marcados por destruição em massa, com poucos saques.
Mas tem havido saques em massa em anos recentes e acho que temos de falar também deles. Houve em Bagdá, logo depois da invasão norte-americana – um frenesi de destruição e saques que esvaziou bibliotecas e museus. Também em fábricas. Em 2004, visitei uma fábrica de refrigeradores. Os trabalhadores haviam saqueado tudo que havia ali de aproveitável, empilharam e incendiaram. No armazém ainda havia uma escultura gigantesca de placas de metal retorcido.
Naquela ocasião, os noticiários entenderam que teria sido saque altamente político. Diziam que aquilo exatamente seria o que aconteceria sempre que um governo não é considerado legítimo pelos cidadãos. Depois de ter assistido durante tanto tempo ao espetáculo de Saddam e filhos roubarem o que conseguissem e de quem conseguissem roubar, os iraquianos comuns sentir-se-iam, então, merecedores do direito de também roubar um pouco. Mas Londres não é Bagdá e o primeiro-ministro britânico David Cameron não é Saddam. Assim sendo, nada haveria a aprender dos saques em Londres.
Mas há exemplos no mundo democrático. A Argentina, em 2001. A economia em queda livre e milhares de pessoas vivendo em periferias destruídas (que haviam sido prósperas zonas fabris, antes da era neoliberal) invadiram e saquearam supermercados de propriedade de empresas estrangeiras. Saíam empurrando carrinhos abarrotados dos produtos que perderam condições para comprar – roupas, aparelhos eletrônicos, carne. O governo implantou “estado de sítio” para restaurar a ordem; a população não gostou e derrubou o governo.
Na Argentina, o episódio ficou conhecido como El Saqueo o saque [1]. É exemplo politicamente significativo, porque a palavra aplica-se, na Argentina, também ao que as elites do país fizeram, ao vender patrimônio da nação à guisa de “privatizar”, em negócios de corrupção flagrante e enviando para o exterior o produto das “privatizações”, para, em seguida, cobrar do povo obediência a um brutal pacote de “austeridade”. Os argentinos entenderam que o saque dos supermercados jamais teria acontecido sem o saque anterior, muito maior, do próprio país; e que os reais gângsteres estavam no governo.
Mas a Inglaterra não é a América Latina e, na Inglaterra, não há tumultos políticos – ou, pelo menos, é o que nunca se cansam de repetir. Os jovens que devastaram ruas em Londres são crianças sem lei, que se aproveitam de uma situação, para roubar o que não lhes pertence. E a sociedade britânica, diz-nos Cameron, tem ojeriza a esse tipo de gente mal comportada.
Disse, e com ar sério. Como se os “resgates” massivos dos bancos jamais tivessem acontecido, seguidos imediatamente do pagamento de escandalosos bônus recordes aos altos executivos. Depois, as reuniões de emergência do G-8 e do G-20, mas quais os líderes decidiram, coletivamente, nada fazer para punir os banqueiros por esse ou aquele crime, além de também nada fazer para impedir que crises semelhantes voltem a acontecer. Em vez disso, cada um daqueles líderes nacionais voltou aos seus respectivos países para impor sacrifícios ainda maiores aos mais vulneráveis. Como? A receita é sempre a mesma: despedir trabalhadores do setor público, fazer dos professores bodes expiatórios, cancelar acordos previamente firmados com sindicatos, aumentar as mensalidades escolares, promover rápida privatização de patrimônio público e reduzir aposentadorias e pensões. – Cada um que prepare a mistura específica para o país onde viva. E quem lá está, na televisão, pontificando sobre a necessidade de abrir mãos desses “benefícios”? Os banqueiros e gerentes de empresas de hedge-fund, claro.
É o Saqueo global, tempo de saques imensos! Alimentados por um sentido patológico de “direitos adquiridos” pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. Aí, afinal, um medo compreensível.
Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saqueos são contagiosos.
Os Conservadores acertam quando dizem que os tumultos nada têm a ver com os cortes. Mas, sim, têm muito a ver com os cortados que os cortes cortaram.
Presos longe, numa subclasse que infla dia a dia e sem as vias de escape que antes havia – um emprego no sindicato, educação barata e de boa qualidade – eles estão sendo descartados. Os cortes são um sinal: dizem a todos os setores da sociedade que os pobres estão fixados onde estão – como dizem também aos imigrantes e refugiados impedidos de ultrapassar fronteiras nacionais cada dia mais militarizadas e fechadas.
A resposta de David Cameron às agitações de rua é tornar literal e completo o descarte dos mais pobres: fim dos abrigos públicos, ameaças de censura e corte das ferramentas de comunicação social e penas de prisão absolutamente inadmissíveis; uma mulher foi condenada a cinco meses de cadeia, por ter recebido um short roubado [e hoje, 17/8/2011, dois homens foram condenados a quatro anos de prisão, por incitarem tumultos pela internet, apesar de não se ter provado que sua “incitação” levou a alguma consequência (NTs, com informações de Guardian em: Facebook cases trigger criticism of “disproportionate” riot sentences). Mais uma vez a mensagem é clara contra os pobres que incomodam: sumam. E sumam em silêncio.
Na reunião “de austeridade” do G-20 em Toronto, os protestos viraram tumultos e vários carros da polícia foram incendiados. Nada que se compare a Londres 2011, mas o suficiente para deixar-nos, os canadenses, muito chocados. A grande discussão naquela ocasião era que o governo havia consumido $675 milhões de dólares na “segurança” da reunião (e ninguém conseguia sequer impedir o incêndio de carros da polícia). Naquele momento, muitos dissemos que o novo e caríssimo novo armamento que a polícia havia comprado – canhões de água, canhões de som, granadas de gás lacrimogêneo e munição revestida de borracha – não havia sido comprado para ser usado contra os manifestantes nas ruas; que, no longo prazo, aquele equipamento seria usado para disciplinar os pobres que, na nova era de ‘austeridade’, seriam empurrados para a perigosa posição de pouco terem a perder.
Isso, precisamente, é o que David Cameron absolutamente não entende: é impossível cortar orçamentos militares ou policiais, no mesmo momento em que você corta todos os gastos públicos. Porque, se o estado rouba os cidadãos, tirando deles o pouco que ainda têm, pensando em proteger os interesses dos que acumulam muito mais do que qualquer ser humano precisa para viver, é claro que deve esperar o troco ou, pelo menos, deve esperar resistência – seja a resistência de protestos organizados, seja a resistência das ondas de saques. Não é propriamente problema político: é problema matemático, físico.

Nota dos tradutores
[1] Ver, sobre esse período, Memoria del Saqueo, filme de Fernando “Pino” Solanas, Argentina, 2004. Pode ser baixado livremente.